Sejam bem-vindos!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Apelido, marca e identifica

Os apelidos como “nego gonça”, “negrinho”, “negão”, no Brasil devem ser utilizados com cuidado. Melhor ser utilizado em casa, realmente entre amigos.
Se sair na rua sendo chamado pelo apelido, isto pode virar arma na mão de um estranho, pode ser usado para discriminar o sujeito que leva o codinome. Ideal é ser “politicamente correto”, chamar o outro pelo nome, ainda mais porque os africanos ou negros, no Brasil, também receberam nomes e até mesmo sobrenome de seus donos.
O “politicamente incorreto”, é usar apelidos para discriminar, também entre conhecidos em local estranho, não ser tratado pelo nome.
Realizar o discernimento de tratamento, seria um chamado, uma convocação, para gerar respeito no tratamento com alguém que não se conhece.
O Brasil está mal acostumado com marcas, rótulos, tanto para o bem quanto para o mal. Pode soar estranho ser chamado pelo nome, por senhor, senhora, moço, moça, porém em um país onde a educação e gentileza, estão esquecidos, seria como reaprender a ser gente com educação.


Por Isis Alves

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Com a palavra, Alpha Condé
A história do presidente Alpha Condé e da República da Guiné confundem-se com a luta por democracia que se reflete em toda a África.

Por: Maurício Pestana



Condé é um dos mais respeitado intelectuais do continente africano. Professor de Ciência Política na Universidade de Sorbonne, em Paris, por 10 anos, passou décadas em oposição a vários regimes ditatoriais de seu país, concorrendo à presidência da República nas eleições de 1993 e 1998, ano em que foi preso por ordem de seu opositor, Lansana Conté, que o acusou de "atentado à autoridade do Estado e à integridade do território nacional". Condé foi liberado em 2001. Em 2010, disputou novamente as eleições - as primeiras realmente democráticas na história da Guiné, após 52 anos de ditaduras. Condé saiu vencedor no segundo turno com 52,5% dos votos. As comemorações pela sua vitória foram marcadas por confrontos violentos entre os partidários do candidato derrotado, Cellou Dalein Diallo, e a polícia. Em 19 de julho de 2011, a casa de Alpha Condé foi invadida por um grupo armado, que explodiu o portão com um lança-foguetes e danificou e destruiu partes da residência a tiros. O presidente saiu ileso, graças à intervenção de sua guarda pessoal. Nesta entrevista exclusiva, o presidente da Guiné - país que detém 2/3 de toda a bauxita produzida no planeta - fala dos sonhos de uma África livre, do Brasil (país que visitou recentemente) e do papel dos negros no mundo na atualidade.


Quais foram suas impressões sobre o Brasil e os afro-descendentes do nosso país?

Já tinha tido a oportunidade de visitar o Brasil e achei um pouco estranho ver que o país, onde 52% da população é negra, ter uma representatividade no governo e em algumas outras posições no poder, que não refletem essa presença. Engraçado que me faz lembrar quando visitei outro país: Cuba. Acho que temos um problema da representatividade dos negros na política e na economia. Por que isso? Com uma grande população negra, por que uma representatividade tão baixa?
Realmente! E uma representatividade baixa devido a vários fatores.
Acredito que sim, mas acho que tudo deve ter a ver com a educação e a sabedoria. Também precisamos de uma liberação cultural! E, na verdade, a África tem uma responsabilidade grande nesse problema, porque, antes da primeira guerra mundial, na Europa, falava-se muito do perigo amarelo e, na realidade, era preconceito contra os orientais. Quando o Japão ganhou a guerra contra a Rússia e, depois, quando a China começou a crescer economicamente, mudou a percepção mundial sobre a raça asiática. Em paralelo, para que o negro se sinta bem em todas as partes do mundo - no Brasil, na América Latina e nos Estados Unidos - é importante que a África mude a sua imagem no mundo. Essa posição do negro no Brasil e onde tem a diáspora é muito ligada à situação da África no mundo. A África também tem que ter outra posição para sentir-se bem. O respeito do negro no mercado é relacionado à posição da África e ao respeito que ela tem no mundo.
De que forma o Brasil, com uma população afro-descendente tão grande, pode estabelecer uma relação mais próxima com o continente africano e a Guiné?
Acho que no Brasil houve uma grande evolução com a liderança do presidente Lula. Na verdade, antes dele, havia aqui uma hegemonia cultural da população de origem europeia, e essa desigualdade da população negra em comparação com a europeia está diretamente ligada à falta de liderança na África, porque os líderes africanos estavam mais interessados em ganhar dinheiro para o seu próprio interesse, depositando o dinheiro em bancos na Europa.
Como assim?
Por exemplo: a Guiné assinou com o Brasil um acordo entre a cidade de Salvador e a minha cidade natal na Guiné, Boké. A partir de agora, essas duas cidades são "cidades irmãs." Hoje temos na Guiné um governo com a missão de desenvolver a situação econômica do país e dar dignidade ao homem africano. Com esses esforços que iniciamos na Guiné, é maravilhoso ver que, aqui no Brasil e na América Latina, os líderes estão enfrentando a responsabilidade que têm sobre a condição do negro. É lá que eu vejo como a Guiné pode contribuir com os países como o Brasil. Fazendo a nossa parte para melhorar a condição econômica, cultural e hereditária, vamos ter uma influência sobre a posição do negro aqui no Brasil. No encontro com a presidente Dilma, falei que o respeito do negro no mundo inteiro, depende da posição que a África vai ter no mundo. Temos uma relação dialética entre a posição do negro no mundo e a posição econômica da África.
Nesse primeiro ano de mandato como presidente, o que o senhor aponta como o principal desafio da Guiné?
O maior desafio do país é lutar contra a corrupção. O potencial da Guiné é muito grande. A Guiné tem potencial para ser o país mais rico da África. Nós chamamos de escândalo geológico. Temos 2/3 da reserva de bauxita do mundo. O ferro é comparável a Carajás, muito puro, 70%. Temos ouro e diamante. Além de ser um escândalo geológico, também somos um escândalo agrícola, temos condições excepcionais de água, todos os rios da África têm nascente na Guiné. Mas somos o último país da região em termos de desenvolvimento econômico, e a razão são a corrupção e a má governança.
E como o senhor pretende mudar isso?
Meu objetivo é materializar o destino que a providência deu à África com essa riqueza natural. Por isso, a cooperação bilateral entre África e Brasil é muito importante. A Guiné vai realizar o seu potencial e vai ter um impacto aqui. Hoje, respeito muito a coragem dos países latino-americanos que reconhecem a desigualdade racial e o preconceito. Os latino-americanos podem realizar muitos esforços, mas, sem a África, não vão poder resolver o problema. A África é parte da solução! É a mãe e, aqui, temos os filhos. Uma mãe respeitada tem criança respeitada. A África tem uma responsabilidade na marginalização dos seus filhos. Um dos maiores desafios é enfrentar essa responsabilidade que temos no destino dos filhos da África. Meu primeiro objetivo é atualizar o intercâmbio na África e que ele tenha repercussões no resto do mundo.


Como ex-professor de Ciências Políticas na Sorbonne, quais perspectivas o senhor vê para a crise econômica na Europa e nos Estados Unidos, e como o continente africano está nesse contexto?
Não faz muito tempo que temos independência na África. Na Europa, a Alemanha e a França querem que a África - que é comparável a uma criança de dois anos - ande como um garoto de 20 anos. Não se perguntam como eles andavam quando tinham dois anos. Na verdade, a África tem uma economia pré-industrial. A Europa tem uma economia pós-industrial. Agora, podemos falar de economias financeiras. Esse tipo de economia não é mais a indústria que traz o valor, agora é o jogo do capital. E como a África tem uma economia pré-industrial, como poderia se comportar como economia pós-industrial financeira? Por exemplo, a Europa não quer que a gente insista em subsídios, fala que temos que baixar o número de funcionários, pois temos demais, mas ela nunca baixa. Fala para reduzir o déficit público, mas, na verdade, desde a crise de 1929, usa o Estado para resolver os problemas. A Europa diz para a África que o Estado não tem que ter esse papel. Na verdade temos uma justiça divina agora. A Europa tem uma crise que é ligada à especulação bancária.

"NO BRASIL HOUVE UMA GRANDE EVOLUÇÃO COM A LIDERANÇA DO PRESIDENTE LULA. NA VERDADE, ANTES DELE, HAVIA AQUI UMA HEGEMONIA CULTURAL DA POPULAÇÃO DE ORIGEM EUROPÉIA, E ESSA DESIGUALDADE DA POPULAÇÃO NEGRA EM COMPARAÇÃO COM A EUROPEIA ESTÁ DIRETAMENTE LIGADA À FALTA DE LIDERANÇA NA ÁFRICA, PORQUE OS LÍDERES AFRICANOS ESTAVAM MAIS INTERESSADOS EM GANHAR DINHEIRO PARA O SEU PRÓPRIO INTERESSE."

Como diz uma frase muito popular aqui no Brasil: "Faça o que eu mando, mas não faça o que faço".
Exatamente! Sabe como eles estão resolvendo o problema? Com uma intervenção do Estado no sistema financeiro, porque utilizaram o dinheiro do povo para resolver os problemas financeiros. Por isso gostei muito de uma declaração do ex-presidente Lula. "Eles fizeram o que não deixaram a África fazer". O ministro da economia americana falou: "Em princípio, sou contra a intervenção do Estado, mas, agora, tenho que usar o Estado para resolver o problema." Os Estados Unidos nacionalizaram a LG e a GM, e isso é contrário à política que eles promovem. A crise de 2008 mostrou o fracasso do sistema, que é ultraliberal, e o papel importante que o Estado tem que jogar na economia.
A China tem se tornado parceira em vários países africanos, fala-se, inclusive, em uma nova forma de colonialismo. Como o senhor analisa isso e qual é a relação da Guiné com o governo chinês?
A Guiné não tem medo da China! A Europa acusa a China de fazer o que a Europa já fez na África. Na verdade, somos conscientes da realidade com a China. A economia chinesa é baseada na exportação, e a China compra bônus americanos. Então, uma crise na Europa ou na América pode ter consequências muito grandes na economia chinesa. Se o mercado chinês diminuir com a crise europeia, ele pode ter uma bolha. O Brasil tem uma situação muito diferente, mais equilibrada. Não é tão dependente do comércio exterior, é mais baseado num desenvolvimento interno. Praticamente, podemos dizer que a economia brasileira arrisca menos que a economia chinesa, e é mais sólida que a economia chinesa. É importante para a Guiné encontrar o equilíbrio e ter parcerias com a Europa, a China e também com o Brasil.

"ALÉM DE SER UM ESCÂNDALO GEOLÓGICO, TAMBÉM SOMOS UM ESCÂNDALO AGRÍCOLA, TEMOS CONDIÇÕES EXCEPCIONAIS DE ÁGUA, TODOS OS RIOS DA ÁFRICA TÊM NASCENTE NA GUINÉ. MAS SOMOS O ÚLTIMO PAÍS DA REGIÃO EM TERMOS DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, E A RAZÃO SÃO A CORRUPÇÃO E A MÁ GOVERNANÇA."

Com essa visão bastante otimista da economia brasileira, o que o senhor espera da relação comercial entre Brasil e Guiné?
Minha visita ao Brasil é também para estabelecer uma colaboração mais estratégica de longo prazo com o país. E temos chance! Temos sorte no desenvolvimento desta relação, porque eu e a presidente Dilma temos muito em comum. Fomos da oposição por muito tempo e temos experiência como presos políticos e suas consequências. Mas, graças a Deus, nós dois conseguimos agora a presidência e sem renunciar aos objetivos e princípios que tínhamos durante todos os anos que fomos da oposição. Essa proximidade pode ter consequências importantes nas relações entre Guiné, Brasil e África. Assinamos o protocolo que tornou a minha cidade natal e Salvador, cidades- irmãs, e isso é uma etapa importante, porque, além de construir uma relação bilateral forte entre o Estado da Guiné e o Estado do Brasil, temos vontade de construir uma relação forte em âmbito estadual entre as cidades do Brasil e regiões da Guiné. É importante construir isso, porque estão relacionados ao status dos negros daqui e a posição econômica na África.
Num cenário próximo, como o senhor vê o futuro do Brasil e da África?
Temos que fortalecer todos os laços e ajudar atingir os dois objetivos. Quando você tem uma criança, a esperança é que o filho seja melhor que a mãe. E a África é uma mãe que quer que os filhos sejam melhores que ela. A mãe África vai fazer de tudo para fortalecer e se emancipar, para ver todos os seus filhos no Brasil, em Cuba e em todas as partes do mundo, seguirem em frente. Essa luta do negro no mundo é a luta da África, é a luta da emergência econômica da África, temos uma batalha dura! Os filhos têm que lutar aqui pelos seus direitos, e na África temos que lutar para dar dignidade ao negro, através de um desenvolvimento econômico, só assim a mãe África e os seus filhos serão mais respeitados em todos os países. Essa é a minha luta!

Fonte: http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/163/artigo246226-1.asp

Devido à Lei 10.639, o mercado de livros voltados às crianças negras não para de crescer

Texto e fotos: Etiene Martins


 
 
 Maria Mazzarello Rodrigues, conhecida como Mazza, trabalha inserindo a parcela negra da sociedade como protagonista na literatura brasileira

O mercado de livro voltado às crianças negras está em franca expansão! Em Belo Horizonte, por exemplo, as editoras já perceberam a demanda pela Lei 10.639 (que determina a obrigatoriedade do ensino da História da África e das populações negras do Brasil nas escolas), e que pais e educadores estão cada vez mais interessados em trabalhar a autoestima das crianças. Mas não é apenas isso! Atualmente, o estímulo à leitura tem levado nossas crianças a escolherem o que de fato querem ler. Essa escolha, para elas, tem que refletir a própria origem e a identidade, por meio de protagonistas bonitos, antenados e, claro, negros. E a diversidade de obras que retratam a cultura negra é enorme. Os personagens, então! São príncipes, princesas, aventureiros e super-heróis que mexem com a imaginação dos pequenos sem, no entanto, apresentar os já conhecidos estereótipos que denigrem a imagem (e a realidade) da população negra brasileira. Até pouco tempo, era praticamente impossível encontrar nos livros um personagem negro que não tivesse características pejorativas, fato que comprometia a construção da identidade e do orgulho negro, formados ainda na infância no campo das semelhanças e diferenças e, principalmente, pelas diversas maneiras que o assunto é tratado pela sociedade.
Há 30 anos, Maria Mazzarello Rodrigues, conhecida como Mazza, trabalha inserindo a parcela negra da sociedade como protagonista na literatura brasileira. Fundadora de uma editora que leva seu apelido, localizada em um bairro da região leste de Belo Horizonte, Mazza se encantou com a diversidade de publicações votada para a etnia negra existente na Europa durante o período que fazia mestrado em editoração na Universidade de Paris. Quando voltou ao Brasil, em 1981, lançou a editora. “Foram 24 anos de muito sufoco, apenas em 2003, que a literatura passou ser obrigatória, é que a situação começou a melhorar. Somente depois da lei, as grandes editoras lançaram um selo negro”, diz Mazza que, como toda negra, sentiu na pele o que é ser uma criança e não se identificar com nenhum personagem. A falta de referência foi o que a impulsionou a entrar no mercado. “Nós entramos pelas portas do fundo, mas há ainda muito que se fazer, pois apenas dez estados brasileiros cumprem a Lei 10.639”, afirma. A obrigatoriedade da lei, no entanto, é vista também como uma grande oportunidade. “Todo aparato que até pouco tempo tínhamos vinha com a predominância branca e com traços europeus, não vejo a Lei 10.639 como obrigatoriedade, mas como uma oportunidade para as crianças negras que hoje podem interagir muito mais. Paralela à obrigatoriedade, está a oportunidade de quebrar esse preconceito”, declara a educadora Iris Amâncio.-

 
O casal Andréia Aparecida e Celso Augusto, com os filhos Vitória, Guilherme e João


EDUCAR COM BONS LIVROS
Chico Juba é um menino corajoso feito um leão. Ele é um grande inventor de xampus que pretende solucionar as incríveis reviravoltas de suas mechas. Seus esforços mostram para as crianças a incrível descoberta que podemos ter, sendo quem somos. A obra é de Gustavo Gaivota, que conseguiu transformar experiências negativas, vividas por crianças de cabelos crespos em uma grande aventura. “Todas minhas obras abordam as questões das diferenças, é o que me move”, diz o escritor. Os livros são absorvidos por pessoas como o professor Leandro Duarte, de 28 anos, que adora comprar publicações que apresentam a questão racial. Para ele, trabalhar com a diversidade é essencial em sua profissão. “O professor tem que fortalecer essas informações junto aos alunos. Na infância, o olhar lançado sobre o negro e sua cultura, tanto pode valorizar identidades e diferenças quanto estigmatizá-las, discriminá-las, segregá-las e, até mesmo, negá-las”, explica. Anderson Feliciano, autor de A verdadeira estória do Saci, acrescenta que é fundamental repassar para as crianças que elas podem, sim, contar sua própria história. “Eu quero que elas se identifiquem com os personagens e não se sintam excluídos como me senti na infância.” Para o ilustrador e escritor de livros infantis étnico-raciais, Rubem Filho, é necessário extinguir da literatura infantil o complexo de senhor e escravo. Ele parte do princípio da igualdade e quer mostrar para as crianças que elas têm todos os motivos para se orgulhar de serem negras.




"TODO APARATO QUE ATÉ POUCO TEMPO TÍNHAMOS VINHA COM A PREDOMINÂNCIA BRANCA E COM TRAÇOS EUROPEUS, NÃO VEJO A LEI 10.639 COMO OBRIGATORIEDADE, MAS COMO UMA OPORTUNIDADE PARA AS CRIANÇAS NEGRAS QUE HOJE PODEM INTERAGIR MUITO MAIS. PARALELA À OBRIGATORIEDADE, ESTÁ A OPORTUNIDADE DE QUEBRAR ESSE PRECONCEITO."
IRIS AMÂNCIO, EDUCADORA


Anderson Feliciano, autor de A verdadeira estória do Saci





"ESSAS PUBLICAÇÕES MOSTRAM UM AVANÇO, UMA ABERTURA NO CENÁRIO MINEIRO QUE DURANTE TODA MINHA INFÂNCIA AINDA TINHA A PORTA FECHADA PARA OS AFRO DESCENDENTES. EU PROCURO INSERIR MEUS FILHOS NO MUNDO LITERÁRIO E AGORA ACREDITO QUE DE UMA FORMA MAIS IGUALITÁRIA JÁ QUE PODEMOS VER O NEGRO REPRESENTADO NAS ESTÓRIAS INFANTIS."
ELISANGELA, AUXILIAR ADMINISTRATIVA


André Luís e o filho Fernando

E, se o mercado está aquecido e os autores produzindo em ritmo e criatividade acelerados, o consumidor não fica atrás em relação ao consumo de livros sobre a cultura negra ou que tragam personagens que servem como espelhos positivos para crianças e jovens. O médico André Luis, de 52 anos, busca compartilhar com o filho adotivo Fernando, de seis anos, a literatura e a cultura afro. “É importantíssima a valorização, não quero que meu filho se veja de forma massacrada, mas sim valorizada, faço questão de inserir em sua cultura publicações que o valorizam.” Andréia Aparecida, de 37 anos, e Celso Augusto, de 32 – ambos técnicos em enfermagem e pais de Vitória, de 8 anos, Guilherme, de 5, e o recém-nascido João –, seguem a mesma receita e procuram inserir a literatura na vida dos filhos desde muito cedo. “É bom que eles criem gosto pela leitura de bons livros”, declara Andréia.




"É IMPORTANTÍSSIMA A VALORIZAÇÃO, NÃO QUERO QUE MEU FILHO SE VEJA DE FORMA MASSACRADA, MAS SIM VALORIZADA, FAÇO QUESTÃO DE INSERIR EM SUA CULTURA PUBLICAÇÕES QUE O VALORIZA."
ANDRÉ LUIS, MÉDICO


Rubem Filho e Gustavo Gaivota












quinta-feira, 13 de setembro de 2012


"Talvez duas crianças tenham morrido para você ter o seu celular"

Consumidores de telefones celulares são chamados a refletir sobre a exploração sangrenta na República Democrática do Congo de uma matéria-prima para esses aparelhos, o tântalo.

A reportagem é de Inés Benítez da Agência de Notícias IPS e reproduzida pelo Brasil de Fato, 12-09-2012.

Os consumidores de telefones celulares são chamados a refletir sobre a exploração sangrenta na República Democrática do Congo de uma matéria-prima para esses aparelhos, o tântalo.
"Pode ser que duas crianças tenham morrido para você ter esse telefone celular", disse Jean- Bertin, um congolense de 34 anos que denuncia o "silêncio absoluto" sobre os crimes cometidos em seu país pela exploração de matérias-primas estratégicas como o coltan (columbita-tantalita). A República Democrática do Congo (RDC) possui pelo menos 64% das reservas mundiais de coltan, nome popular na África central para designar as rochas formadas por dois minerais, columbita e tantalita.

Da tantalita se extrai o tântalo, metal duro de transição, de cor azul acinzentado e brilho metálico, resistente à corrosão e que é usado em condensadores para uma enorme variedade de produtos, como telefones celulares, computadores e tablets, bem como em aparelhos para surdez, próteses, implantes e soldas para turbinas, entre muitos outros. "A maldição da RDC é sua riqueza. O Ocidente e todos que fabricam armas metem o nariz ali", lamenta Jean-Bertin, que chegou há oito anos à cidade espanhola de Málaga, procedente de Kinshasa, onde vivem seus pais e dois irmãos.

A extração de coltan contribui para manter um dos maiores conflitos armados da África, que causou mais de cinco milhões de mortos, êxodo em massa e violações de 300 mil mulheres nos últimos 15 anos, segundo organizações de direitos humanos. Isto foi reconhecido em 2001 pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), que confirmou a existência do "vínculo entre a exploração ilegal dos recursos naturais e a continuação do conflito na República Democrática do Congo". Um grupo de especialistas convocado pelo Conselho registrou até 2003 cerca de 157 empresas e indivíduos de todo o mundo vinculados, de um modo ou de outro, à extração ilegal de matérias-primas valiosas na RDC.

A exploração de coltan em dezenas de minas informais, salpicadas na selva oriental da RDC, financia os grupos armados e corrompe militares e funcionários. A extração artesanal, sem nenhum controle de qualidade, comporta um regime trabalhista próximo da escravidão e um grande dano ao meio ambiente e à saúde dos trabalhadores, incluindo crianças, segundo o documentário de 2010 Blood in the Mobile (Sangue no Celular), do diretor dinamarquês Frank Piasecki.

No entanto, fontes da indústria, como o Tantalum- Niobium International Study Center (TIC), alertam que as jazidas de coltan na RDC e de toda a região da África central estão longe de serem a fonte principal de tântalo. A Austrália foi o principal produtor desse mineral durante vários anos e mais recentemente cresceu a produção sul-americana e asiática, além de outras fontes, como a reciclagem. O TIC estima que as maiores reservas conhecidas de tântalo estão no Brasil e na Austrália, e ultimamente há informações sobre sua existência na Venezuela e na Colômbia.

RDC tem outras riquezas naturais igualmente contrabandeadas, como ouro, cassiterita (mineral de estanho), cobalto, cobre, madeiras preciosas e diamantes. Contudo, está em último lugar no Índice de Desenvolvimento Humano 2011. Neste cenário, as denúncias da sociedade civil organizada apelam cada vez mais aos consumidores de produtos que contêm estes materiais. Na Espanha, a Rede de Entidades para a República Democrática do Congo - uma coalizão de organizações não governamentais e centros de pesquisa - lançou em fevereiro a campanha Não com o meu Celular, para exigir dos fabricantes o compromisso de não usarem coltan de origem ilegal.

O surgimento de novas fontes de tântalo e a reciclagem deveriam ajudar a reduzir a pressão da demanda sobre o coltan congolense. A organização Entreculturas e a Cruz Vermelha Espanhola promovem desde 2004 a campanha nacional Doe seu Celular, para incentivar a entrega de aparelhos velhos para serem reutilizados ou para reciclagem de seus componentes. Os fundos obtidos são investidos em projetos de educação, meio ambiente e desenvolvimento para setores pobres da população. Até julho foram coletados 732.025 aparelhos e arrecadados mais de um milhão de euros, contou ao Terramérica a coordenadora da campanha na EntreculturasEster Sanguino.

Entretanto, fundações e empresas dedicadas à reciclagem, ouvidas pelo Terramérica, concordam que seria impossível abastecer com esta fonte uma porção significativa da crescente demanda mundial por tântalo. A pressão do mercado faz com que as pessoas troquem o celular por outro mais moderno de tempos em tempos, por isso a reciclagem, mesmo feita em grande escala, não daria conta, disse ao Terramérica uma fonte da BCD Electro, empresa de reutilização e reciclagem informática e eletrônica. E a telefonia móvel é apenas um segmento das aplicações atuais do tântalo.

Apple Intel anunciaram, em 2011, que deixariam de comprar tântalo procedente da antiga colônia belga. Nokia eSamsung fizeram declarações similares. A Samsung assegura em sua página corporativa que tomou medidas para garantir que seus terminais "não contenham materiais derivados do coltan congolense extraído ilegalmente". Na verdade, os códigos de conduta empresariais vieram preencher o vazio de normas taxativas.

O esforço maior é o das Diretrizes da OCDE para Empresas Multinacionais, pois compreende todas as nações industrializadas sócias da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Porém, o longo e opaco circuito do coltan congolense torna difícil demonstrar que tais códigos são cumpridos. Os minerais explorados ilegalmente são contrabandeados através de países vizinhos, como Ruanda e Uganda, para Europa, China e outros destinos.

"Os grupos rebeldes proliferam pela riqueza das terras em coltan, diamantes ou ouro", disse ao Terramérica o coordenador da organização humanitária Farmamundi na RDC, Raimundo Rivas. Os governos vizinhos são "cúmplices" e "até o momento tudo é apoiado e encoberto pelas empresas beneficiárias, em seu último destino, dessas riquezas", ressaltou. "Há muitos interesses econômicos em torno do negócio do coltan", alertou Jean-Bertin. Enquanto isso, na RDC "as matanças são reais. O sangue está por toda parte, e, no entanto, é como se o país não existisse".

Por isso gera expectativas a decisão da Comissão de Valores dos Estados Unidos (SEC), que, no dia 22 de agosto, regulamentou um capítulo da Lei de Proteção do Consumidor e Reforma de Wall Street, referente aos "minerais de conflitos". A Lei 1.502 estabelece que todas as empresas nacionais ou internacionais já obrigadas a entregar informação anual à SEC e que manufaturem ou contratem a manufatura de produtos que contenham um dos quatro minerais de conflito (estanho, tântalo, tungstênio, ouro) deverão adotar medidas para determinar sua origem mediante a análise da cadeia de fornecimento.

Contudo, o primeiro informe deverá ser apresentado em 31 de maio de 2014, prazo considerado excessivo por defensores dos direitos humanos, que denunciam os crimes que continuam sendo cometidos na RDC, apesar da presença desde 2010 de uma missão de paz da ONU. Com o olhar dominado pela raiva e sua filha de seis meses nos braços, o congolense Jean- Bertin insiste que os grupos armados "dão armas a muitas crianças e as obrigam a entrar para um ou outro bando". Para Rivas, "a única solução é um governo forte na RDC, que possa responder aos ataques, e um apoio internacional real que penalize aquelas empresas suspeitas de importar minerais de zonas em conflito". 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Ruanda: Guerra civil
    Dominique Bizimana, de Ruanda, acumula as funções de jogador do time de vôlei sentado e presidente do comitê paralímpico do país desde 2004.

Atleta foi recrutado quando adolescente na guerra civil do país
Aos 16 anos, Bizimana foi recrutado como soldado da FPR (Frente Patriótica de Ruanda) e perdeu a perna esquerda durante a guerra civil no país, que deixou pelo menos 800 mil mortos em três anos. "Depois que perdi a perna, eu consegui voltar para a escola. Terminei o ensino secundário com 21 anos e entrei na universidade", contou à BBC Brasil. Na universidade, Bizimana - que costumava jogar futebol, vôlei e basquete antes do acidente - fazia parte de uma associação de alunos com deficiência e recrutava colegas para times praticar esportes.
    "Eu tentava trazer meus colegas que também tinham deficiências para jogarem voleibol normal, usando próteses. Em 2001, eu descobri que havia os Jogos Paralímpicos na internet e criamos o comitê". O atleta conta que os para-atletas do país não tinham apoio oficial até 2004. Antes disso, eles dependiam das ONGs que atuam no país com vítimas do conflito. "Naquela época ainda não tínhamos autoconfiança, muitas famílias escondiam as pessoas com deficiência. Foi difícil para eu convencer as pessoas a jogar."
    Depois da participação de um atleta ruandense em Sydney 2000, o comitê conseguiu classificar dois atletas para Atenas 2004 e um para Pequim 2008. Em Londres, a delegação paralímpica de Ruanda tem 14 atletas em três esportes. "Em 2004, por sorte, um dos atletas que tivemos na época trouxe uma medalha de bronze. Aí começamos uma campanha com o apoio da mídia para encontrar novos atletas e fortalecer a delegação", relembra Bizimanda.
    "Se você for agora para Ruanda, vai ver que o movimento paralímpico dá orgulho para o país. Acho que demos um bom exemplo e somos muito respeitados."
Geórgia: Minas terrestres
    Foi o investimento financeiro direto da primeira-dama da Geórgia, Sandra Roelofs, que fez com que Nika Tvauri pudesse ir à sua primeira competição internacional de natação, o Campeonato Mundial de 2011, na Turquia, e ganhar a medalha de bronze.

Nadador teve ajuda direta da primeira-dama do país para ir a primeira competição internacional
O nadador, de 28 anos, é metade da delegação da antiga república soviética em Londres 2012. Ele perdeu a visão e 90% da mão direita aos 16 anos, quando pegou nas mãos uma antiga mina, que encontrou perto de sua casa, no subúrbio de Tbilisi. O país herdou um "estoque" de minas do período soviético, mas não se sabe a exata localização de muitas delas. De acordo com a ONG Landmine and Cluster Munition Monitor, as principais ameaças aos civis e uma das principais causas de deficiência no país são as minas abandonadas, como a que atingiu Tvauri.
    Em 10 anos, ele passou por 10 operações e chegou a recuperar a visão temporariamente algumas vezes. "Era uma situação em que eu não sabia se deveria esperar ou fazer algo de útil”, disse à BBC Brasil. "Tentei fazer uma universidade, mas como não conseguia seguir linhas retas com a mão esquerda, não conseguia ler braille, e acabei desistindo." Ele diz que pensou que a natação poderia ser o esporte ideal para praticar por causa das raias da piscina, marcadas de modo a dar apoio aos para-atletas que são deficientes visuais.
Colômbia: Violência urbana

Atletas do time de basquete foram alvo de balas perdidas e tentativas de assalto à mão armada
A violência urbana na Colômbia fez pelo menos quatro vítimas no time paralímpico de basquete em cadeira de rodas, que se classificou pela primeira vez na história para os Jogos. Freddy Rodríguez foi atingido por uma bala perdida na coluna aos 8 anos de idade, quando vivia em Caquetá, na Amazônia colombiana.
    A região é um dos principais cenários do conflito armado no país, que se estende intermitentemente pelos últimos 50 anos e responsável por um dos maiores números de deslocados internos do mundo.

Violência de gangues ligadas ao narcotráfico deixa milhares de mortos a cada ano na Colômbia
    No primeiro ano como nadador profissional, Tvauri foi financiado integralmente pela família, mas somente dois anos e meio depois de ter começado a carreira, consegui o bronze no campeonato mundial. Depois de mais um bronze e um ouro no mundial de 2012, ele conseguiu uma vaga nos Jogos e viu o reconhecimento do esporte paralímpico aumentar na Geórgia, onde também era comum que famílias escondessem seus membros com deficiências da sociedade. Desta vez, os dois atletas foram homenageados com uma festa antes de deixar o país e são tema de uma canção feita por um grupo local.
William Pulido, de 34 anos, ficou paraplégico aos 15 anos ao ser baleado em uma briga na rua, em Bogotá. Como no caso da maioria de seus colegas, ele passou a jogar basquete em cadeira de rodas durante o processo de reabilitação, como atividade terapêutica.
    "O esporte é o eixo fundamental de toda a minha vida. Graças a ele me reabilitei, estudei e segui adiante", disse Pulido à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC. Germán Garcia e Guillermo Alzate, que também fazem parte do time, foram atingidos por um tiro e uma facada, respectivamente, em tentativas de assalto também na capital colombiana.

Estamos em 8º lugar!
As medalhas do Brasil até agora:
OURO
Atletismo feminino - Terezinha Guilhermina
Atletismo masculino - Felipe Gomes
Atletismo masculino - Alan Fonteles Oliveira
Atletismo masculino - Yohansson Nascimento - Record Mundial
Bocha misto - Dirceu Jose Pinto/Eliseu dos Santos
Natação masculino - Andre Brasil
Natação masculino - Daniel Dias - Record Mundial
Natação masculino - Daniel Dias
Natação masculino - Andre Brasil - Record Mundial
Natação masculino - Daniel Dias - Record Mundial
PRATA
Atletismo masculino - Odair Santos
Atletismo feminino - Jerusa Santos
Atletismo masculino - Daniel Silva
Atletismo masculino - Yohansson Nascimento
Judô feminino - Lúcia Teixeira
Natação masculino - André Brasil
Natação masculino - Andre Brasil

BRONZE

Atletismo masculino - Jonathan De Souza

Judô masculino - Antônio Tenório
Judô feminino - Michele Ferreira
Judô feminino - Daniele Bernardes

Fonte: globoesporte.com

sábado, 1 de setembro de 2012


 Vivendo, aprendendo, observando, etc,...


Desculpe as palavras que usei, mas, é o que eu constatei ao participar de um seminário e durante minha aula de Afrodescendentes na América Latina, após ouvir repetido ponto de vista, “destacando que sempre há um branco ou uma branca que toma a frente para mudar a história dos negros...”, sinceramente custei a acreditar que tinha ouvido isto e mais de uma vez ainda. Os brancos possuem super heróis brancos, os quais os salvam e os outros povos. Ora posso dizer que não foi mais que fazer uma obrigação, um dever, a África não pediu que fosse invadida, que transformasse seus povos em escravos, para anos depois serem salvos, serem encorajados. Todo povo tem sua força, coragem, inteligência, família, riqueza ou pobreza de alma, conduta, caráter.
Acho que infeliz conclusão de quem falou isso, porque ainda precisa continuar aprendendo , estudando e principalmente se integrando com os outros.
Cito ainda o filme Histórias Cruzadas, onde as mulheres, que não conseguiam mudar sua realidade, lutavam para mudar a vida, o futuro dos filhos, quando orgulhosas, via na escola, na faculdade, a salvação para eles. Até mesmo Rosa Parks, lutou bravamente ao se recusar a dar seu lugar no ônibus, em tempo de segregação racial.
É mais que necessárias aulas de qualidade sobre os negros e índios, pois os brancos possuem mentalidades padronizadas, exemplo, “... índios não querem se misturar, não procuram faculdade, não precisa cotas, tem que ser pelo esforço...”, não sabem que já houve e há lutas, muitos esforços, mas sempre com algum bloqueio de divulgação, por mais que se tenham notícias quando de interesse principalmente político.
O “esforço” de Zumbi continua, o “esforço” do índio continua, e seguirá sempre ao encontro do bem viver e não só do bem que preciso para viver.


Isis Alves