Sejam bem-vindos!

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Lázaro Ramos e Criolo contam no cinema história vitoriosa de jovens músicos da periferia

Sérgio Machado dirige filme inspirado na Orquestra de Heliópolis

 

 


No set: em ‘Acorda Brasil’, Lázaro Ramos leciona música para jovens de uma comunidade dominada pelo traficante Cleyton, vivido por Criolo
Foto: Divulgação No set: em ‘Acorda Brasil’, Lázaro Ramos leciona música para jovens de uma comunidade dominada pelo traficante Cleyton, vivido por Criolo 

 

 SÃO PAULO - Em meio a notas musicais de Bach, Guerra-Peixe e Villa-Lobos, numa roda com 21 adolescentes de violino, violoncelo e contrabaixo na mão, Lázaro Ramos puxa um "É devagar/ É devagar/ devagarinho" para quebrar a seriedade num intervalo das filmagens de "Acorda Brasil", longa-metragem que o diretor Sérgio Machado roda há cerca de um mês, em solo paulista. Preparados para o filme ao longo de um ano de ensaios com instrumentos musicais, o time de jovens atores arrisca toda a sorte de experimentação.

No sábado, quando o GLOBO visitou um dos sets do filme, na Comunidade Monte Azul, em Jardim São Luiz, São Paulo, eles arriscaram uma variação com ar de sinfonia clássica dos versos "Foge, foge Mulher Maravilha/ Foge, foge com o Superman", do axé "Liga da Justiça", do grupo LevaNóiz.
— Filmar com essa galera é uma experiência libertadora para qualquer ator — elogiava Lázaro, que interpreta o maestro Laerte na produção de cerca R$ 8,5 milhões inspirada na trajetória de superação da Orquestra de Heliópolis.
Com distrubuição assegurada para 2013, via Fox Film, o novo longa do diretor de "Cidade Baixa" (2005) recria com licença poética e humor a saga da orquestra criada pelo maestro Silvio Bacarelli para estimular a inclusão cultural de jovens de uma das maiores favelas paulistanas. Nos anos 1990, Bacarelli começou a formar músicos egressos de comunidades menos abastadas de São Paulo.
— Este é um filme para mostrar que o Brasil não é um país condenado ao fracasso — diz Machado, que escreveu o roteiro com Maria Adelaide Amaral e Marta Nehring em diálogo com a peça homônima de Antonio Ermírio de Moraes e fatos reais. — É uma história falada no dialeto da periferia, que denuncia a tragédia social brasileira, buscando esperança.
‘Namíbia, não’ a caminho
Aos 17 anos, a violinista Girleide Vitorino, moradora de Monte Azul, integra a trupe de estudantes recrutados em diferentes regiões de São Paulo por Fátima Toledo, preparadora de elenco do longa, produzido pelos irmãos Caio e Fabiano Gullane ("O ano em que meus pais saíram de férias").
— Sempre sonhei em estudar artes cênicas, mas nunca tive um caminho para isso. Agora, encontrei uma trilha — diz Girleide, ao lado do colega Kaique de Jesus Santos, o único da orquestra de "Acorda Brasil" com experiência na telona.
Hoje com 18 anos, ele foi visto, aos 13, como o filho caçula da família mostrada em "Linha de passe" (2008), de Walter Salles e Daniela Thomas.
— A música manteve os garotos de Heliópolis no caminho do bem — diz Jesus Santos.
No filme, Thaís Araujo, Sandra Corveloni e Fernanda de Freitas juntam-se a Lázaro numa narrativa que tem como referência o filme francês "Entre os muros da escola", de Laurent Cantet, premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2008, e também ambientado num universo escolar de periferia.
— Nos últimos dez anos, chegaram para mim convites para atuar em uma série de filmes que apontavam problemas sociais mas não viam um caminho de transformação, como este faz — diz Lázaro, cujo personagem esbarra com um antagonista vivido pelo rapper Criolo, o traficante Cleyton. — Atuando, Criolo é quase uma entidade.
Hoje, "Acorda Brasil" deixa as locações em comunidade e vai pra a Sala São Paulo, sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Lá, Machado filma o teste que Laerte presta para a Osesp. Seu fracasso o leva a ser professor em Heliópolis, onde sua vida muda. Visualmente, o fotógrafo do filme, Marcelo Durst (consagrado por "Estorvo" e sumido das telas há seis anos) frisa a diferença de olhar do personagem de Lázaro.
— Buscamos uma identidade visual capaz de traduzir os dois modos de olhar do Laerte, antes e depois de Heliópolis. No começo, quando ele chega sem enxergar a vida a seu redor, eu desfoco a lente da paisagem, e me fixo nele — explica Durst.
Astro de "Cidade Baixa", Lázaro sai do set de "Acorda Brasil" deixando uma missão para Machado, envolvendo a adaptação da peça "Namíbia, não", que o ator dirigiu no teatro em 2011:
— Se Sérgio escrever o roteiro, eu dirijo "Namíbia, não" e estreio como cineasta. Prometo.


Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/lazaro-ramos-criolo-contam-no-cinema-historia-vitoriosa-de-jovens-musicos-da-periferia-5245420


quarta-feira, 6 de junho de 2012

A filha de Betty

Herdeira. "Ser filha de Malcom X é fácil. Difícil foi ser filha de Betty, pobre, com outras seis irmãs". Foto: Felipe Milanez


Ser filha de Malcolm X é fácil. Difícil foi ser filha de Betty Shabazz, com outras seis irmãs, pobres, no Harlem.” Todas as vezes que encontro Malak Shabazz ela sempre prefere falar da mãe quando pergunto sobre seu pai. Nessa família de ativistas afro-americanos, não há um sem o outro. Malak é a caçula, e não chegou a conhecer Malcolm, morto quando Betty estava grávida. E como os pais, ela segue na luta por direitos humanos e justiça social. Nos últimos tempos, seu foco tem sido o feminismo. “Igualdade”, ela diz. “Equal rights.”
Na sede da National Action Network: House of Justice, o clima é triste, mas não como o do velório no dia anterior, de Gil Noble, um famoso âncora negro de tevê. Malak, metida em uma bata africana, toma o microfone: “Brother Gil era um amigo da família. Eu sei quem ia lá em casa. Muita gente diz que é amigo. Depois do filme Malcom X, de repente todo mundo era amigo. Mas no clima de ódio daquele tempo, ele sempre estava lá. E quando teve espaço na tevê, minha mãe cobrou dele para representar e defender o povo negro, o povo da diáspora africana. E ele fez. Gil também nos apoiou na luta para preservar o local onde meu pai foi assassinado, e hoje se chama The Malcolm X and Dra. Betty Shabazz Memorial and Educational Center.”

O centro fica a poucas quadras da House of Justice. No início do ano, uma bela exposição lembrava as “freedom sisters”, mulheres negras que lutaram pelos direitos civis. Agora em maio está em cartaz The Long Walk to Freedom, a longa marcha pela liberdade. Também com fotografias, gráficos e biografia de ícones do movimento pelos direitos civis.
O memorial ocupa o antigo Audubon Ballroom, local onde Malcolm X, aos 39 anos, foi assassinado na noite de 21 de fevereiro de 1965 por três integrantes da Nação do Islã. O edifício pertence à Columbia University e foi cedido em 2005 para uso da família por 99 anos, após intensa mobilização no fim dos anos 1980, quando a universidade quase derrubou o prédio.
A reforma foi bancada pela cidade de Nova York e pelo banco Chase e planejada pelo também conhecido arquiteto negro Max Bond, que estudou em Columbia. “Ainda faltam 97 anos, temos muita coisa para fazer aqui”, diz Malak, confiante. A exposição Freedom Sisters foi financiada pela Fundação Ford. Além do centro, a família dirige a Malcolm X Foundation, o X Legacy Inc., e uma série de planos de bolsas para estudantes negros, especialmente em medicina, em Columbia.
Há um belo salão de danças no segundo andar do memorial. Piso de madeira, telhado branco e um imponente mural. Malak emociona-se. Ela para no exato local do crime, próximo à janela, onde ficava o palco em que seu pai discursava. Na parede oposta, um grande mural resume a vida de Malcolm X. “Foi bem aqui que mataram ele. A minha mãe estava ali do lado, eu e minha irmã na barriga dela.” Qubilah Shabazz, segunda das irmãs, foi testemunha do crime (e acabaria presa em 1995 acusada- de encomendar a morte de Louis Farrakhan, que teria incentivado o assassinato de seu pai).

Malak é uma celebridade no Harlem e mantém viva a memória dos pais


“As pessoas falam de meu pai, mas esquecem de Betty. Ela criou seis filhas sozinha. Estudou, fez doutorado. Organizou a luta pelos direitos, foi intensa ativista. E ela nos protegeu. Só nos demos conta do ódio que havia lá fora quando fomos à universidade.”
Malak é uma celebridade no Harlem. Nas ruas, apertos de mão, acenos. Descendente de italianos, pareço deslocado – o único não afrodescendente na reunião da House of Justice. Mas a identidade brasileira abre portas. “Eu tenho lido muito sobre os quilombos, que luta incrível os nossos irmãos travam no Brasil”, afirma Gary, um radialista de voz forte durante a cerimônia. “Meu pai queria unir os povos africanos. Na África, na América, todos os negros da diáspora imposta pela escravidão”, afirma a ativista. “Minha mãe adorava a Bahia. Foi muitas vezes para lá. Acho até que ela tinha algum namorado”, sorri.
A adoção do islamismo, talvez uma forma de protesto, é sustentada pelo que Malak diz ser sua fé. Cristãos e muçulmanos eram opostos na luta nos direitos civis, inclusive dentro do movimento negro. Ela lembra a histórica divergência entre seu pai e Martin Luther King. “Se batessem nele, Luther King iria oferecer a outra face. Meu pai partiria para a briga. Ele nunca aceitou a submissão.” Suas palavras, diz ela, fortaleciam a autoestima do afro-americano para lutar por seus direitos. “Hoje estamos vivendo um retrocesso.” A militante teme pelas eleições presidenciais deste ano. “Não é fácil (re)eleger um negro neste país racista.”
A conversa logo entra no tema das cotas raciais, as ações afirmativas. “Temos de ter acesso a direitos. Vivemos como exilados. Viemos embaixo de um navio, no porão. Contra a nossa vontade.” Ela fala em “direito para vivermos e justiça social”, o “direito de existir”. Contra os argumentos popularmente apresentados no Brasil, entre eles o de que as cotas pioram o nível da educação, é direta: “Isso é ridículo. Quem acredita nisso?”
A música está em cada canto do Harlem. Malak diz não gostar de rap (“É violência, degrada as mulheres”), mas mostra simpatia pelo hip-hop (“É um modo de vida. Como o jazz, usa a arte para abrir a mente e a alma”).
“A música é uma arma”, diz Gary, parceiro de Steve Wonder no famoso disco Songs In The Key of Life, enquanto conduz a cerimônia na House of Justice. “Com a música ninguém pode nos impedir de criar, de falar. E hoje, com a web, estamos livres das gravadoras. Ninguém pode nos impedir de distribuir”, incentiva ao microfone. “Uma revolução está sendo criada pela música. Temos de usar o poder da música, que é a mais poderosa forma de comunicação.” Malak aprova. A resistência e a esperança ela herdou, em igual medida, de Malcolm e Betty.

Fonte: Felipe Milanez/Carta Capital

Base de Aratu: um oásis sitiado 

 

A base naval de Aratu, na zona metropolitana de Salvador, é um recanto para algumas personalidades da República. Em dezembro de 2011, Dilma Rousseff escolheu como destino a Praia de Inema para tirar alguns dias de folga. A base é também um dos locais preferidos de Luiz Inácio Lula da Silva: durante dois anos consecutivos o ex-presidente passou o reveillon no local, cujo acesso é restrito à Marinha do Brasil.


São aproximadamente 500 pessoas. Há relatos de gerações de famílias que estão na área há mais de 100 anos e hoje estão assediados pela opressão dos oficiais. “A gente vive sendo ameaçado de morte. É uma verdadeira guerra contra nossas crianças e idosos”, conta Rosemeire Santos, 33 anos, uma das líderes da comunidade.Descrevendo dessa maneira pode até parecer que Aratu é um oásis. Mas os oficiais que garantem a segurança dos chefes da República durante suas férias são os mesmos que há cerca de 40 anos tiram o sossego dos moradores da região do Rio dos Macacos, terreno localizado dentro da base e já reconhecido como quilombola pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Ela nasceu e cresceu no quilombo e explica que a Marinha reveza momentos de extrema violência com outros de relativa paz. “Hoje em dia minha filha pequena tem medo dos camburões. Minha avó está doente, em cima de uma cama, e nem isso eles respeitam. Colocam armas nos nossos rostos. Chegam à nossa casa no meio da noite, não podemos nem dormir”, lamenta.
Histórico
O embate entre os oficiais e os moradores do quilombo começou em 1954, quando a prefeitura de Salvador doou o terreno para a Marinha, que logo construiu uma barragem. Nos anos 1970 foi levantada uma vila naval para ser a residência dos fuzileiros. “Essa vila foi feita em cima de terreiros de candomblé. Desde então os relatos são de que 50, 60 famílias foram expulsas sem direito à indenização. Essa comunidade que restou fica do outro lado do Rio dos Macacos e são os remanescentes dessa primeira investida”, afirma Maurício Correia, da Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais da Bahia. Junto com a Defensoria Pública da União no estado, a entidade presta assessoria jurídica aos moradores da comunidade.
Em 2010, a Marinha entrou com uma ação na Justiça Federal, por meio da Advocacia-Geral da União, pedindo uma liminar de reintegração de posse, concedida pelo juiz Evandro Reimão dos Reis, da 10ª Vara Federal de Salvador. Desde então os moradores começaram a se mobilizar. Em setembro do mesmo ano a Fundação Palmares certificou o território como quilombo, o que fez com que o despejo passasse a ser postergado. “A reintegração de posse já foi adiada duas vezes: a primeira foi uma tentativa de negociação, estavam propondo um relocamento dessa comunidade, algo que eles não pretendem aceitar”, diz Correia.
A reintegração de posse ocorreria em 4 de março deste ano, mas foi adiada para 1º de agosto. “Foi articulado um novo acordo para a suspensão do cumprimento dessa decisão durante o tempo necessário para o Incra elaborar o Relatório de Identificação e Demarcação da Comunidade”, explica.
Mais agressões
Enquanto o Incra trabalha na elaboração do relatório, os quilombolas fazem o que podem para a preservação de seu terreno. No dia 13 de maio estiveram em Brasília para pedir ajuda. “Foi um ônibus com toda a comunidade. Tivemos uma reunião com a Secretaria Geral da Presidência, com o Ministério da Defesa e com a Procuradoria Geral da República, mas o governo insiste que só tomará novas providências com a conclusão do documento do Incra”, relata Correia.
Rosemeire conta que nem durante a viagem os moradores ficaram livres de truculência. “Do dia 13 até o dia 17, quando a gente voltou para a comunidade, eles seguiram a gente. Lá em Brasília um tenente estava andando em um carro da Polícia Militar. Outro rapaz em um carro branco atirou na minha irmã, mas ela conseguiu desviar. Enquanto isso, nossas crianças que permaneceram no quilombo estavam cercadas pelos oficiais que ficaram na base”.
Mesmo recorrendo ao governo, a violência não cessou. Em 28 de maio, uma segunda-feira, seis camburões da Marinha invadiram o local. Isso porque o morador José Araújo dos Santos estava reconstruindo uma parede de sua casa, destruída pelas fortes chuvas que atingiram Salvador no fim de semana anterior. “Nós fomos chamados por eles e fomos barrados na portaria da vila militar, mesmo tendo procuração do processo. Tivemos que dar a volta por um caminho alternativo, fomos interpelados, recebemos voz de prisão de um soldado. Chegamos lá e encontramos a comunidade sitiada, a casa rodeada com fuzileiros com escudo, com tropas de choque mesmo e um acampamento militar, cheio de crianças, de idosos, um pessoal desarmado. Os almirantes estavam enfrentando a comunidade com fuzil, algo que não se usa em nenhum tipo de gestão de crise com sociedade civil”, conta o advogado.
E complementa: “Nós ficamos lá até 9 horas da noite e só saímos quando houve um acordo com o comando da Marinha, mediado pela Secretaria de Promoção da Igualdade da Bahia. Ficou combinada a retirada imediata das tropas e marcado que no prazo de 48 horas fosse verificada essa questão da possibilidade de reconstruir as moradias, mas até agora a gente não tem resposta sobre isso”.
“Mais do que a questão da permanência no terreno, o que mais nos preocupa é a constante opressão. Não é somente violência física, mas também psicológica. Quando nós estamos lá garantimos que não haverá violência, mas e quando saímos?”, questiona Correia.Apesar do acordo, a líder da comunidade diz que a Marinha não saiu do local. “Eles não cumpriram. Saíram dois camburões, o restante ficou no fundo do quilombo. Os oficiais que não saíram rodearam a casa do meu irmão à uma hora da manhã com armas e ficaram lá”, narra.
Assembleia pública
Diante da situação, membros do Conselho de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados visitaram o Quilombo do Rio dos Macacos na última segunda-feira 4. A comissão, presidida pelo deputado Domingos Dutra (PT-MA), tinha como objetivo verificar a veracidade das denúncias contra a Marinha e ter uma dimensão do tamanho do terreno. Além dele, estiveram também presentes os deputados baianos Amauri Teixeira, Luiz Alberto e Valmir Assunção.
Dutra diz ter comprovado as violações no local. “O que nós verificamos aqui é uma situação talvez única no País. O nível de miséria é alarmante, é uma miséria absoluta, incompatível com um País que se intitula a sexta economia do mundo. As pessoas aqui não têm uma residência, mas umas choupanas. Pessoas idosas estão morando em chiqueiros e ainda por cima estão proibidos de fazer qualquer melhoria nessas casas”, relata o deputado.
Os quilombolas também não têm acesso à energia elétrica, tampouco podem plantar no território ou pescar no Rio dos Macacos. A Marinha realiza três patrulhas por dia, sempre ostensivamente armada, mas nega a opressão. Em nota oficial, afirma estar no direito de proibir a construção das casas, uma vez que ganhou o processo de reintegração de posse na 10ª Vara Federal. “Eles negam as acusações. Estivemos com o Vice-Almirante Monteiro Dias e ele disse que não há agressões e que, muito pelo contrário, são os fuzileiros os verdadeiros injustiçados”, conta o deputado.
A Marinha também nega que o território seja um quilombo, dizendo que os moradores estão há menos de 40 anos na área. Também afirmam que o território é fundamental para a permanência da Base de Aratu e que apenas estão defendendo o patrimônio da União. “Nós recebemos cartas de crianças que estão com medo dos fuzileiros navais. Diante dessas denúncias, dos relatos de jovens, idosos, homens e mulheres e considerando a negativa do almirante da Marinha, nós vamos fazer audiência na Comissão dos Direitos Humanos e vamos levar todo mundo para relatar isso para quem quiser ouvir. Vamos conversar com a Advocacia-Geral da União porque eu considero um absurdo que a entidade antes de esgotar todos os diálogos tenha ingressado uma ação judicial para despejar uma comunidade que afirma que tem mais de 100 anos”, garante.
Para Dutra, é possível compatibilizar a vida da base naval com a do quilombo e considera que realocar os moradores não deve ser uma opção. “Esse caso é simbólico. Se essa moda pega e o governo federal ficar realocando quilombola, como Marambaia no Rio de Janeiro e Alcântara no Maranhão, vai acabar com os quilombos do Brasil”, acredita.
 
FONTE: CARTA CAPITAL

sexta-feira, 1 de junho de 2012


Fotos mostram frases que vítimas de abuso sexual costumavam ouvir

Projeto "Unbreakable" foi criado pela estudante americana Grace Brown para denunciar crimes de abuso sexual e já conta com cerca de mil fotos.

Debora Pivotto

 

De tanto ouvir histórias de amigos e conhecidos que sofreram algum tipo de abuso sexual, a americana Grace Brown, 19 nos, decidiu que queria fazer algo para denunciar esse crime. “A minha ideia era mostrar para as pessoas que é um problema muito mais comum do que a gente pensa”, diz Grace.
Para isso, a estudante de fotografia teve a ideia de criar um projeto simples, mas muito impactante. Fotografou as vítimas segurando um cartaz com frases que costumavam ouvir dos abusadores – e que nunca foram esquecidas. Coisas como “Se você contar para alguém, ninguém vai acreditar” ou “é isso que os pais costumam fazer com as filhas”.
Assim, nasceu em novembro de 2011 o projeto Unbreakable (inquebrável, em português), que já conta com quase mil fotografias de pessoas do mundo todo. Veja a seguir uma entrevista com a estudante e uma galeria com mais fotos do projeto.
profissão repórter (Foto: Grace Brown/divulgação)"Não use roupas íntimas esta noite" - noivo da minha mãe (eu tinha 6) (Foto: Grace Brown/divulgação)

Como surgiu a ideia do Unbreakable?
Eu já tinha ouvido muitas histórias de pessoas que tinham sofrido abusos, e elas foram ficando cada vez mais frequentes. Até que um dia, uma amiga desabafou comigo e contou que também já tinha sido uma vítima. E lidar com o sofrimento de uma outra pessoa foi algo muito difícil pra mim. Tive a sensação de que aquilo iria acontecer sempre com os meus amigos. E no dia seguinte, eu acordei com a ideia do projeto.
profissão repórter (Foto: Grace Brown/divulgação)"Se contar para alguém, seus
pais não vão mais te amar"
Quantas pessoas já participaram?
Eu já fotografei cerca de 160 pessoas e outras 800 mandaram as próprias imagens.

Algum brasileiro?

Nunca me preocupo muito com a origem das imagens, mas já vi sim pessoas do Brasil.

Por que acha que tanta gente quer participar? Como isso pode ajudá-las a superar a questão?

Quando as pessoas passam por situações como essa, muitas vezes, elas não percebem que aquilo é como uma pedra no estômago que estão carregando. Participar do projeto é uma chance de liberar um pouco isso e dizer que ‘sim, eu passei por tudo isso e sobrevivi, sou inquebrável’. As frases são muito pesadas. Eu quis fazer o projeto para mostrar como o abuso sexual é muito mais frequente do que se pensa. Nem imaginei que fosse ter um processo de "cura" por trás disso. Mas algumas semanas depois, as pessoas começaram a falar como tinha sido catártico participar do projeto.

Fonte: http://g1.globo.com/profissao-reporter