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terça-feira, 20 de novembro de 2012

20 de novembro – Dia da Consciência Negra

 

Zumbi dos Palmares
Nesta terça-feira, 20 de novembro, celebramos o Dia da Consciência Negra. A data é de reflexão sobre a importância da cultura e da história do negro no Brasil. Neste dia, no ano de 1695, morreu Zumbi dos Palmares, um símbolo da resistência à escravidão.
Zumbi, que quer dizer “a força do espírito presente”, era filho de guerreiros angolanos. Ele nasceu em um povoado de escravos no Brasil chamado de quilombo. Foi capturado quando criança por soldados e entregue a um padre chamado Antonio Melo. Esse padre ensinou o português e o latim para o menino, que era muito inteligente e foi batizado com o nome de Francisco. Aos quinze anos, ele fugiu e voltou para o Quilombo.
Lá, ele se tornou um líder e lutou contra a escravidão. Ficou conhecido como Zumbi dos Palmares. Palmares foi o nome dado à região onde ficava o quilombo porque tinha muitas palmeiras. Hoje, estado de Alagoas.
Mas uma expedição militar foi designada para destruir o povoado. Cerca de nove mil homens armados com canhões derrotaram o movimento do quilombo. No dia 20 de novembro de 1965, encontraram e mataram Zumbi.
Em 2003, por meio de uma lei, esse dia foi declarado como o Dia Nacional da Consciência Negra. Essa mesma lei tornou obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

Fonte: http://africas.com.br

 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Subúrbia e o novo!

 

 Por Cidinha da Silva

Começou Subúrbia! E eu que ansiava tanto pela série só consegui assistir o primeiro capítulo a partir da cena em que Conceição sai do hospital com o pé engessado. É que a vida me chamou para algo mais interessante do que a TV e mesmo tendo compromisso comigo mesma, precisei adiar a função telespectadora de mini-série.

Uma coisa boa está acontecendo, várias pessoas do campo das artes negras têm se manifestado quanto ao primeiro capítulo do seriado, entretanto, pouco (ou nada) reconheço da minha mirada no material que tenho lido. São tantos os problemas apontados e eu não os vi. Estarão meus sentidos embotados?

Procurei assistir o capítulo inteiro pela Internet, mas só consegui uma cena nova, o momento da fuga de Conceição da FEBEM e logo a seguir o atropelamento pela benfeitora (não se trata de algo novo ou velho, a benfeitora ainda é constante na vida de muita gente preta), portanto, não vi a cena da carvoaria, a chegada dela ao Rio e devo ter perdido outras coisas também.

Em dado momento eu escrevia sobre Gabriela e gostaria de convidar meus leitores a assistirem Subúrbia, no parágrafo final do texto. Perguntei a um ator conhecido sobre o pessoal nosso envolvido na trama, pois queria informação segura e completa. Recebi pronta e gentil resposta, mas nenhuma menção a Paulo Lins, como co-roteirista, apenas nomes de atores e atrizes. Imaginem a bola que eu, uma escritora, comeria, se não menciono a presença e o trabalho do grande Paulo Lins? Minha Nossa Senhora, como o povo diz na terra minha e de Érika Januza. Nem eu me perdoaria.

O esquecimento de Paulo Lins, sujeito fundamental da trama, me lembra os comentários sobre Subúrbia que tenho acessado, parciais e um tanto egocentrados. É certo que tenhamos diferentes pontos de vista, miradas diversas, a partir de pontos determinados, mas há que buscar a abrangência, mesmo que seja apenas no aprofundamento do aspecto escolhido para análise. Não basta afirmar de maneira peremptória que os atores e atrizes negros de Subúrbia são maravilhosos! Esse grupo de profissionais, fantástico, sim, merece que nos debrucemos sobre a atuação de cada um deles. É o mínimo necessário.

Até o momento, o texto de Subúrbia é delicado, preciso, poético, historicamente localizado e pleno de significado nas entrelinhas. Um texto à altura de Paulo Lins, um dos maiores escritores do Brasil contemporâneo. Cidade de Deus, ao lado de Viva o povo Brasileiro e Um defeito de cor, compõe, a meu juízo, a tríade magistral do romance brasileiro de 1970 para cá. Um autor dessa envergadura não merece ser reduzido ao lugar de insider, daquele que estaria a serviço dos brancos, da Globo e do capitalismo oferecendo o frescor das tintas pretas para repaginar uma velha história. Pelo menos não merece se não houver uma análise consubstanciada do texto que justifique a conclusão. Permito-me a redundância e afirmo, é um autor merecedor de crédito.

Estou adorando o texto, os diálogos e a performance do elenco. Confesso a vocês que demorei para reconhecer a Dani Ornellas. Eu a tinha visto em ação uma vez, em Filhas do Vento. Acho que ela perdeu o ar de menina e não assisti outros trabalhos para ver a mulher florescer. Mas, me digam aí, vocês que entendem muito de teledramaturgia, não é uma coisa muito boa a atriz modificar-se de tal forma quando encarna uma personagem, que a gente fica em dúvida se a conhece ou não? Lembrei-me de um comentário feito por um cineasta. Ele contava que Dani Ornellas era acusada de ser bonita demais para uma negra brasileira, parecia atriz estadunidense e isso deve tê-la impedido de conseguir alguns trabalhos. E aí está ela, subvertendo essas expectativas racistas e hipócritas, encenando uma mulher negra evangélica, uma fundamentalista do morro, mas com princípios. Ah... que bom, Subúrbia nos permite ver essa grande atriz na telinha. E bela, esplendorosa beleza, que ser bonita nessa terra só é defeito, quando se trata de limitar a ascensão profissional de uma preta talentosa.

Louca eu estava para assistir a atuação de Haroldo Costa, só o conheço como escritor e personagem antológico do samba. Vi, mas não o suficiente para emitir opinião. Quero muito ver a cena em que ele olhará as gaiolas de passarinho, sentado no quintal, como a foto imortalizada de Pixinguinha, com o saxofone no colo, no jardim da própria casa. Isso, além de configurar imagem inter-textual, é a tal cultura negra, bem representada pela arte.

Não vi Haroldo Costa, ainda, mas vi Cridemar Aquino, impagável como Moacir, o filho mais velho do patriarca suburbano. Homem casado, malandro na medida, inclusive nos quilinhos a mais. Paquerador manso e safado, daquele tipo “estou aqui, se a gata quiser, não nego fogo”. De leve, no sapatinho, respeitador e dado, oferecido discreto, daqueles que colam o corpo no corpo da menina e deixam o corpo falar. Ele não explicita o desejo como os adolescentes doidos para pegar a moça no laço. De acordo com os rudimentos de dramaturgia conhecidos, isso se chama construção de personagem. Cridemar constrói Moacir com solidez e verossimilhança. Ah... que bom Subúrbia ter oferecido a Cridemar a possibilidade de mostrar na TV o grande ator que é, velho conhecido nosso da Companhia dos Comuns.

Às vezes, um ator ou atriz demora mais para chegar ao papel, tive essa sensação com Rosa Marya Colin, a matriarca suburbana. Mas uma hora ela chega e vai cantar, precisa cantar, o Brasil vai parar para ouvi-la e, infelizmente, muita gente achará que nasceu, no instante do canto, uma cantora madura.  Zezé Barbosa e Sheron Menezes não chegaram de cara em Lado a lado, mas agora já encontraram o tom de Berenice e Jurema e estão muito bem, melhores, a cada capítulo da novela das seis.

O texto é muito bom e Érika Janusa é mesmo atriz revelação. A Conceição criança é uma ótima atriz também, que tenha o tratamento dado às demais boas atrizes mirins da Globo. Aquela cena do caminhão de leite que chega na FEBEM todo dia, acompanhada por Conceição, estudada, cronometrados no relógio mental os gestos do motorista, é sua única possibilidade de fuga, é de poesia ímpar.

O leite é ensacado, como a gente só consegue ver hoje em super-mercado chinfrim de subúrbio ou em super mercado de rico, nas seções quase naturebas, leites tipo B e tipo A, não o velho e conhecido C. Hoje predomina o leite de caixinha, muitas marcas com componentes do formol, a título de conservante. Esses detalhes constroem uma ambiência verossímil e as tramas negras são merecedoras desse cuidado estético.

A cabeça da Conceição-menina desandou as contas da passagem do caminhão de leite, por isso, ela sabia que passou muitos dias presa. O eu lírico da menina (porque isso é poesia, se vocês não perceberam) precisava de um recurso qualquer que a ajudasse a contar o tempo necessário para maturar a fuga. O texto, as entrelinhas e o olhar dela, o risco de perder a vida grudada debaixo do caminhão para não morrer em vida, me deram esse entendimento. Simplesmente porque a arte é colírio para meus olhos viciados e cansados do mesmo, quando vejo o novo, sei enxergá-lo, mesmo que não seja em Todo dia é dia de Maria.

Aos navegantes, confirmo que é em Minas Gerais a localização da carvoaria. Só no dialeto mineirês as pessoas falam uma “muntuêra de dia”, para significar muitos dias, dias de perder a conta ou “dimais da conta” para não perder o tom do dialeto, nem a metáfora, nem a ideia de diáspora, que carece de compreensão, até entre nós.

A corporeidade negra será um tema forte em Subúrbia e isso é bem velho, quando se trata das abordagens feitas à gente. Não tenho competências substanciais para analisar o tema, mas sei do seguinte. Há alguns anos trabalhava num projeto de ação afirmativa com jovens negros que acontecia em São Paulo e no Rio de Janeiro, simultaneamente. Houve uma atividade de integração no Rio e o local escolhido foi a quadra de esportes do Complexo do Alemão, onde morava grande parte dos integrantes do projeto. Morava lá também a assistente de coordenação do módulo-Rio, uma mulher negra, jovem, casada, mãe de duas crianças e formada em Pedagogia. Churrascão no sábado à tarde e a moça chega hiper rebolativa, trajando um micro-short (relativamente solto no corpo, acho que era o código de diferença entre casadas e solteiras), salto plataforma de 10cm, blusa de alcinha, branca e transparente. Quando ela chegou ao portão da quadra, creio que fui a primeira a vê-la e me levantei para cumprimentá-la, não tanto por simpatia, mas porque eu estava morrendo de medo e queria saber se não haveria mesmo tiroteio e se houvesse, para onde deveríamos correr. A moça nem me viu. Do alto dos óculos escuros enormes percebeu que todo o grupo estava vestido de projeto, mesmo no churrasco na quadra do Alemão. A moça deu meia volta, foi em casa, vestiu uma bermuda acima do joelho, uma regata com borboletas e flores, sandália rasteira e voltou uniformizada para socializar-se num projeto educativo em moldes paulistanos.

Esse episódio me ensinou muito sobre a corporeidade negra, real, vivida no cotidiano do Rio de Janeiro, parte singular dessa imensa diáspora negra, e confio que Paulo Lins a conheça muito melhor do que eu e vá retratá-la com dignidade. Foi o que vi até o momento.

O funk ingênuo do final dos anos 80, década de 90, de Claudinho e Bochecha, Pepê e Nenem, me transporta para o funk de hoje que os meninos faziam no bondinho de Santa Tereza quando iam para o Dois Irmãos ou saiam do colégio público no Largo das Neves. O mesmo funk  brincalhão do decantado 5 Vezes Favela. Lembram da cena em que um dos garotos perde uma prova de Matemática ou é mal sucedido na prova, algo assim? Isso imediatamente vira letra de funk, como parte do código de comunicação entre a moçada. Os proibidões também são uma forma de comunicação, a diferença é que são usados como trilha sonora do tráfico, do sexo e da guerra.

Não entendi qual é o problema da cena de estupro, para além do estupro, em si, obviamente. Aguardo o próximo capítulo torcendo para que tenha sido mesmo uma tentativa, que o estupro não seja consumado. Fiquei procurando um instrumento pérfuro-cortante no entorno de Conceição para ajudá-la em sua defesa. Tomara que haja um e que ela tenha condição de reagir. É novo que todos nós chamemos o ocorrido de estupro, com todas as letras. Estupro dentro de casa, patrão estuprando a empregada.

Não consegui ver o mais do mesmo denunciado. Ao contrário, a cena não foi construída como algo normal, corriqueiro, sim, mas normal, não. É corriqueiro porque é acontecimento freqüente para as trabalhadoras domésticas, dentro do local de trabalho. Era comum naqueles dias, nos dias antes daqueles e continua sendo hoje. Conceição, ao que parece, contará com uma rede de solidariedade negra, uma família que vai acolhê-la e não vai questioná-la. Isso é velho na nossa vivência, mas novo na TV brasileira.

A música de Roberto Carlos é o problema? Por quê? Vi coerência na escolha. Desde criança Conceição trabalha ouvindo Roberto. Ela estava trabalhando e o macho branco indômito tenta forçá-la ao sexo. O cantor faz parte do cotidiano dela, da rotina de todo dia e, certamente, a fantasia do tarado é estuprá-la na circunspecção de sua vidinha, a cozinha, com o rádio e a música habituais. Estamos falando de composição de cena, certo?

Outra coisa, os críticos não pensaram que a música poderia ser uma alegoria da cotidianidade do estupro? Meninas e mulheres são estupradas durante o dia, quando saem da escola, quando vão comprar pão, quando deixam as crianças na creche, quando estão sozinhas em casa, até dentro do ônibus quase vazio, não só de madrugada, quando saem do baile funk. Se fosse uma música da trilha de Hitchcok acharíamos exagerado. Qual é a trilha sonora adequada a um estupro na teledramaturgia?  Existe uma?

Alguém mais atento e lúcido chamou a atenção para o momento em que Vera, personagem de Danielle Ornellas, apresenta a casa para Conceição. Existem quartos, vários quartos! Quantas vezes vimos, na teledramaturgia global, uma casa ampla e arejada, de gente pobre e digna como aquela? Eu nunca havia visto. Quantos de nós tivemos uma casa assim e não a vimos ou vemos representada? Uma casa simples, mas grande, com quintal, amorosa e espaçosa! Subúrbia está mostrando isso. Para os meus olhos cansados que já viram muita coisa insólita sobre o negro na TV, é algo novo.

A amiga de Conceição vai para a igreja e quer levá-la para o seu mundo. Conceição recusa, delicadamente, ela tem sua própria fé, sua santinha Aparecida, como grande parte dos pretos das Minas e dos interiores de São Paulo (olha a diáspora negra aí, gente!). Ela quer experimentar o que é dormir numa cama na casa de verdade de uma família preta, que poderia ser a família dela, que desde o momento da acolhida ela sente como sua família. Conceição quer degustar o que é estar numa casa de verdade, cujos donos são gente igual a ela. Aos desavisados, lembro que a primeira fala da menina Conceição ao chegar à casa da futura patroa branca foi: “é a primeira vez que eu entro numa casa de verdade, tem até televisão.” Desculpem-me irmãos, mas meus olhos cansados que já viram muito do mesmo, estão abertos para enxergar o novo no tratamento da teledramaturgia brasileira aos negros e essa cena, a meu juízo, foi plena de humanidade e significado poético, por isso nova, no formato de abordagem à vida dos negros, em que pese o tipo de personagem negro escolhido para a trama.

Por fim, a cena que mais me emocionou é o primeiro dia efetivo de trabalho da menina Conceição. A singeleza com que ela, criança, não consegue ajeitar o avental, feito para uma mulher adulta e a naturalidade com que a patroa branca a ajuda. É assim mesmo, não é? Conhecemos essa história velha, mostrada, a meu ver, com arte. O afeto camufla a exploração, justifica que crianças negras trabalhem, afinal, a patroa precisava mesmo de uma empregada que dormisse no emprego. Conceição era uma pessoa de bem, digna de cuidar de suas crianças. Ela sentiu isso quando ouviu a história da menina. Deus e o diabo moram nos detalhes, não é?

Fiquei emocionada porque me lembrei do segundo período do meu curso universitário, quando tinha aulas aos sábados pela manhã. No quarto sábado de aula, quando chegava para subir a rampa da FAFICH, saiu esbaforida de um dos prédios chics que cercavam o antigo e decadente prédio da universidade, uma moça negra que gritava “Parecida, Parecida, me espera”. Aguardei, surpresa. Era Rosana que havia sido minha colega de turma no segundo ano primário, nove anos atrás. Depois de me abraçar, perguntar se eu me lembrava dela e de ouvir minha resposta afirmativa, ela me disse uma das coisas mais marcantes da minha vida: “eu trabalho naquele prédio ali e quando te vi da janela, há três sábados, eu sabia que era você. Eu sabia que você ia conseguir. Eu sabia que você ia fazer faculdade. E eu vim aqui para falar com você, mesmo sem saber se você ia se lembrar de mim, para te dizer que todo sábado de manhã, quando você sobe essas escadas, eu subo junto com você, eu entro junto com você na sala de aula. E quando você sair dali, formada, eu vou me formar junto com você.”

Eu, como vocês imaginam, chorei como choro agora, e só consegui abraçar aquela mulher-gigante e me recostar nos ombros dela, consternada por todo Axé que ela me dava. E, se vocês não entenderam, eu só consegui, como Rosana disse, porque tive uma família digna e amorosa, como a família de Subúrbia e que cuidou de mim como criança, quando eu era criança.

A cena me emociona, porque dentre todas as minhas colegas negras do segundo ano primário, éramos cinco, eu tinha oito, nove anos, elas tinham um pouco mais porque estavam repetindo a série, só eu não trabalhava à tarde como empregada doméstica, como Conceição e Rosana. A primeira na casa da doutoranda, a segunda na casa das professoras da própria escola.

Quando fui transferida para aquele grupo escolar, vinda de outro melhor, me colocaram no horário-tampão de 11:00 às 15:00, estratégia para otimizar o tempo de funcionamento da escola e garantir vaga para a super população de crianças do bairro operário. Pedi a meu pai que me transferisse para o horário das 7:00 às 11:00 e, por pouco ele não conseguiu, porque eu não trabalhava e poderia estudar no pior horário, segundo a diretora.

Eu me emociono porque até outro dia, meu pai me dava notícia dessas colegas que em dia de eleição, principalmente, passavam na casa dele para ter notícias minhas. Mais de trinta anos se passaram e eu continuava sendo a realização delas. E meu pai me contava que uma tinha cinco filhos, outra aparentava ser muito mais velha do que de fato era, outra tinha varizes assustadoras. Um dia, diante da falta de notícias, perguntei ao pai se elas não passavam mais por lá. Ele respondeu que passavam sim, mas decidira parar de me contar porque percebia que eu ficava triste e chorava escondido.

Em um lugar ou em outro, de Conceição, de Rosana de Parecida ou de Cidinha, essa é a minha história. É assim a nossa vida e, se nós mesmos não formos capazes de nos reconhecer em Subúrbia, quem será?

Foto: Érika Januza e Paulo Lins / Fabrício Boliveira

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Fazendas de pecuária na Amazônia concentram mais de um terço das libertações de escravos 

 

Mais de um terço das libertações de escravos realizadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego de 1º de janeiro até 18 de outubro de 2012 aconteceram em fazendas de gado dentro dos limites da Amazônia Legal, de acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Dos 150 flagrantes registrados até agora em 2012, 54 envolveram pecuária na região.  Estatísticas gerais sobre o assunto foram divulgadas na semana passada (clique aqui para acessar tabela completa) e reforçam a associação entre desmatamento para abertura de pastos e trabalho escravo.  “As atividades de trabalho ligadas à pecuária, como a preparação do roço de juquira [limpeza no pasto] e a manutenção de cercas, têm sido historicamente as mais recorrentes de utilização de trabalho escravo”, aponta o frei Xavier Plassat, da CPT.
A reportagem é de Guilherme Zocchio e publicada por Repórter Brasil, 01-11-2012.

Segundo Xavier, o número de ocorrências é alto porque a pecuária reúne tarefas que não exigem especialização e que empregam mão de obra de maneira apenas esporádica — fatores normalmente relacionados a baixos salários, ausência de carteira assinada e condições degradantes.

Além da pecuária outras atividades relacionadas ao desmatamento também têm utilizado escravos na Amazônia. Ao todo, foram 91 casos na região em 2012, incluindo os 54 da pecuária, o que representa 60,7% de todos os casos do país. Em junho, a Repórter Brasil apresentou o estudo “Combate à devastação ambiental e ao trabalho escravo na produção do ferro e do aço”, com informações sobre a produção ilegal de carvão na Amazônia com a exploração de escravos.

Xavier ressalta que os dados são baseados nas fiscalizações do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e que o número de flagrantes depende das áreas em que as ações acontecem, de modo que os dados são um indicativo de onde ocorrem os principais casos de escravidão no Brasil e não um retrato exato. Além disso, a proporção de libertações pode variar dependendo das regiões que o MTE priorizar para as inspeções trabalhistas.

Pará e Mato Grosso


No Brasil, entre os principais estados que lideram esta atividade econômica estão o Pará e o Mato Grosso, com respectivamente 18 milhões e 29 milhões de cabeças de gado bovino, conforme dados da Pesquisa Pecuária Municipal (PPM) de 2011 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

A expansão da pecuária está ligada ao avanço do desmatamento sobre a Amazônia, no chamado “Arco de Fogo do Desmatamento”, que se concentra nos dois estados. No mapa abaixo, em vermelho estão as áreas embargadas pelo órgão por problemas ambientais. É possível visualizar as derrubadas que, como um arco, cercam a floresta ainda preservada. A imagem foi retirada do sistema de mapas do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama).


Em vermelho, áreas embargadas pelo Ibama por problemas ambientais. Fonte: Siscom

Na última atualização da “Lista Suja”, cadastro do MTE de proprietários e empresas flagradas com escravos, um em cada quatro incluídos eram do Mato Grosso.

Desconforto no Sul e Sudeste


Para Xavier, outra informação significativa no último levantamento feito pela CPT é o aumento do número de ocorrências de escravidão contemporânea nas regiões sul e sudeste do país. “O surgimento de casos nessas duas regiões provocou certo desconforto nos responsáveis pela fiscalização”, afirma. Em boa parte dos flagrantes encontrados nessas duas áreas brasileiras estão os casos de trabalho análogo ao de escravo em atividades tipicamente urbanas.

Ocorrências na construção civil e em confecções têxteis representam 11,3% do total de flagrantes levantados pela CPT. Durante o período de um mês, neste ano, o MTE chegou a libertar, em três fiscalizações diferentes, 167 vítimas do trabalho análogo ao de escravo em empreendimentos da construção civil — inclusive, em um deles, em obras do programa “Minha casa, minha vida” do governo federal. No ramo têxtil, este ano em São Paulo, 23 migrantes foram resgatados de condições de trabalho degradante, enquanto costuravam para a grife de roupas Gregory.

Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/515143-fazendas-de-pecuaria-na-amazonia-concentram-mais-de-um-terco-das-libertacoes-de-escravos

 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Somos todos Guarani Kaiowá

"O grito ecoa brasil e mundo afora. Uma campanha se espalha pela rede social, como um eco do genocídio e violência contra o povos Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Desde o dia 29 uma delegação desse povo está em Brasília numa intensa agenda de debates, mobilizações, imprensa e órgãos do governo e organismos aliados de sua causa. É um momento excepcionalmente importante na luta desse povo por seus direitos. Vamos transformando essa indignação e comoção nacional em ações efetivas de garantia dos direitos indígenas", escreve Egon Heck, CIMI-MS, ao enviar o artigo que publicamos a seguir.
Eis o artigo.
Uma intensa campanha brota e circula nas redes sociais e nas ruas. É o Brasil e o mundo se dando conta de um drama secular. Hoje a campanha ganhará importantes aliados  e visibilidade, com as propostas de adesão da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, da Comissão da Amazônia, dentre outras. Ganhará também espaço e visibilidade com uma entrevista coletiva online no Conselho Nacional de Psicologia. E ganhará as ruas com uma caminhada na esplanada dos Ministérios.

Todos somos e seremos um pouco mais Guarani Kaiowá, cidadãos brasileiros e cidadãos do planeta terra, na medida em que nossa comoção indignada frente a violência institucionalizada e mortes anunciadas, se transformar em ações que exigem respeito aos direitos humanos e da natureza. Que beleza se dessa campanha emergir um  país um pouco mais justo, com o reconhecimento e demarcação das Terras Kaiowá Guarani e de todos os povos indígenas do país.

Sessão histórica

O Planalto do poder não mais poderia continuar omisso vendo o furacão passar. A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, colocou na pauta da 213ª ordinária, a situação Kaiowá Guarani,com a presença de uma delegação indígena deste povo. Também estiveram presentes os membros da Comissão Especial Kaiowá Guarani, criada no âmbito desta secretaria do governo. Dentro os indígenas  estavam os líderes das comunidades em situação de violência e conflito: Lide Lopes, de Pyelito Kuê, Jenilton do tekohá Guayviry, filho do cacique Nisio Gomes, assassinado há quase um ano, Dionisio liderança de Arroio Korá, comunidade que esta em retomada de parte de suas terras já homologadas, e sob intensa pressão e violência de pistoleiros.

Outras lideranças expressivas do movimento. Lindomar, liderança do povo Terena, relatou a grave situação do povo kadiweu do Mato Grosso do Sul, contra os quais também pesa ação de despejo, embora seja uma terra indígena já demarcada, homologada e registrada. É uma insegurança jurídica absurda, pois se isso acontece com as terras regularizadas, imagina o que não poderá suceder às demais terras indígenas. Tudo isso tem sido estimulado pela portaria 303 da AGU. Nos próximos dias está previsto o julgamento, no STF, da petição que poderá por fim a essa situação. Ressaltou que a decisão da 3ª Região da Justiça Federal, tomou decisão favorável  à permanência dos índios de Pyelito Kuê, mas de forma vergonhosa.' Como duzentos índios vão sobreviver em um hectare de terra?"

A chegada do Ministro da Justiça e da delegação Kaiowá Guarani foram aplaudidas de pé. A imprensa estava ali postada com suas ferramentas, ávidos de novidades.

A Ministra dos Direitos Humanos ressaltou a importância que os povos indígenas tem para o Brasil e em consequência também para o governo, razão pela qual essa secretaria não poderia deixar de promover essa reunião de cooperação e trabalho sobre essa causa. O Ministro da  Justiça se esmerou em anunciar as medidas concretas que estavam sendo tomadas pelo governo: empenho para a cassação da liminar, cujo resultado anunciou efusivamente logo depois, reforço do policiamento com a presença de maiores contingentes da Polícia Federal e Força Nacional na região e medidas para agilização dos processos de demarcação das terras indígenas na região do Mato Grosso do Sul. Afirmou que dentro de 30 dias estaria sendo publicado o relatório da terra indígen Pyelito Kuê. Disse ser vontade expressa da presidente Dilma, que se cumpra a Constituição, e que ordenava que fossem tomadas todas as medidas cabíveis para que isso aconteça com relação as terras Kaiowá Guarani.

O Dr. Eugenio Aragão, que preside a Comissão Especial Kaiowá Guarani, lamentou que o  governo só age quando acontecem catástrofes, quando se chega à beira do abismo. Lembrou que apesar de 91% das terras indígenas estarem já demarcadas, o que sobrou são as áreas mais difíceis “são carne de pescoço”! Nessas regiões, em especial, as populações indígenas continuam sendo vistas como estorvo e entrave para o progresso.  Ensejou que seria o momento de avaliar os erros do governo no tocante à regularização das terras indígenas. Disse ser urgente a solução da questão fundiária, caso contrário se continuará alimentando o genocídio, o ódio a raiva  o rancor contra esse povo indígena.

Marta Azevedo
, presidente da Funai, de forma emocionada, e por vezes falando em Guarani, reafirmou seu compromisso com esse povo, dizendo que aceitou a presidência do órgão como forma de contribuir  diretamente com a conquista dos direitos dos Kaiowá Guarani. Admitiu que são enormes as dificuldades para fazer avançar os processos de demarcação, mas que tem conseguido alguns compromissos, como o dos antropólogos dos 6 Grupos de Trabalho, que prometeram  concluir e entregar os relatórios até o final do ano.

Passos contra o genocídio


A delegação Kaiowá Guarani em Brasília, teve uma intensa agenda de conversações, debates, e reuniões com órgãos de Direitos Humanos, Ministério Público e Supremo Tribunal Federal. Na avaliação das lideranças o caminho é este. Continuarão sua luta na volta a seus tekohá, e estarão em Brasília, nas mobilizações por esse país afora, para somar forças e sensibilizar a sociedade brasileira e mundial sobre o genocídio que está em curso, com inúmeras vidas ceifadas e uma violência institucionalizada.

Hoje irão participar de coletivas de imprensa, manifestações públicas, participação em eventos na Câmara dos deputados. Amanhã haverá uma audiência pública, convocada pela Comissão de Direitos Humanos do Senado.

Por todo o país aumentam as mobilizações  contra o genocídio Guarani Kaiowá e pelos direitos dos povos indígenas. Já estão agendadas  atos públicos em quase duas dezenas de cidades brasileiras, especialmente as capitais de Estados.

Numa reunião no Centro de Defesa dos Direitos Humanos, na Câmara dos Deputados, presidida pela deputada Erica Kokai, ficou claro a importância de acentuar essa campanha de indignação e comoção nacional, a fim de chegar à coordenação de algumas ações concretas que levem ao reconhecimento dos direitos desse povo e estanque as violências, injustiças e genocídio em curso.


Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/noticias/515088-somos-todos-guarani-kaiowa

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Eleição de Tânia Terezinha da Silva quebra preconceitos

Dois Irmãos será único município do RS a ser comandando por mulher negra

Tânia Terezinha da Silva comandará Dois Irmãos. 
Crédito: Vinicius Roratto










O município de Dois Irmãos, no Vale do Sinos, 53 anos depois da sua emancipação, entra para a história política do Rio Grande do Sul ao eleger pela primeira vez uma prefeita. A administração da cidade ficará com a técnica de enfermagem Tânia Terezinha da Silva, 49 anos, no mínimo, pelos próximos quatro anos (2013 a 2016). Filiada ao PMDB desde 1995, ela recebeu 9.450 votos dos eleitores no dia 7 de outubro.

O que chama atenção na eleição desta mulher negra e com dreadlocks — forma de se manter os cabelos que se tornou mundialmente famosa com o movimento rastafári —, é que Tânia está em um município onde predominam descendentes de alemães. A escolha coloca a futura prefeita ao lado de políticos negros como Alceu Collares — prefeito de Porto Alegre de 1986 a 1989, governador de 1991 a 1995 e deputado federal por cinco mandatos —, e do ex-deputado estadual Carlos Santos (falecido em 1989), que assumiu por duas vezes interinamente o governo gaúcho em 1967.

Tânia teve uma grande conquista porque, das 35 mulheres eleitas no Rio Grande do Sul, é a única negra, de acordo com levantamento da Federação das Associações de Municípios do RS (Famurs). O Estado tem 497 municípios. Com forte militância na área da saúde e da assistência social, ela conquistou a confiança da comunidade de Dois Irmãos, principalmente na zona rural do município, onde trabalhou nos postos dos bairros São João e Travessão e na emergência que funciona 24 horas.

Além disso, foi eleita três vezes vereadora do município. Em 2008, entrou para a história de Dois Irmãos como a mais votada da cidade, com 2.055 votos. A marca até hoje não foi superada por nenhum candidato. Em 2010, uma nova alegria: foi a primeira mulher a presidir a Câmara Municipal. “Tanto no Legislativo quanto nas unidades de saúde, minha proposta sempre foi resolver o problema das pessoas. Atendia todos e buscava uma solução para o pedido de cada morador da cidade”, comenta.

Para Tânia, é fundamental dar importância ao que as pessoas estão falando e, segundo ela, esse foi o diferencial em 2012. Ela acredita que três paradigmas foram quebrados: o fato de ser a primeira mulher a concorrer à prefeitura, ser negra e divorciada. “A população queria algo novo, forte e diferente. A competência e o trabalho em favor da população de Dois Irmãos transcendeu a cor da pele.”

Tânia recorda que começou a sentir que a vitória estava próxima quando faltavam 15 dias para o pleito. “Os moradores começaram a ligar para o comitê atrás de adesivos e placas para colocar nas suas casas”, lembra.
Na quinta-feira, Tânia reassumiu suas funções no posto de saúde do bairro Travessão. Ela tem dividido seu tempo com os filhos que moram com ela em Dois Irmãos. Pablo e Hohana cursam Biomedicina e Enfermagem, respectivamente, na Feevale. Além disso, trata com o vice-prefeito Jerri Adriani Meneghetti (PP) e assessores detalhes para a posse no dia 1° de janeiro de 2013.

Popularidade de Tânia impressiona
Natural de Novo Hamburgo, Tânia Terezinha da Silva desfruta de uma popularidade impressionante em Dois Irmãos, onde reside desde 1994. Durante um passeio pela Praça do Imigrante, um dos seus locais preferidos no município, onde residem 27 mil habitantes, a futura prefeita agradeceu aos moradores pela votação. “O cabelo é um sucesso, principalmente entre as crianças, que adoram tocar”, conta.

Tanto entre os empresários quanto entre sindicalistas e a população, a expectativa é que a prefeita tenha um olhar igual para todos. O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Dois Irmãos, Ademir Berlis, ressalta que Tânia já provou que sabe trabalhar e dar atenção à população, como já ocorreu na área da saúde. “Tomara que ela leve esse conceito para a administração pública, porque estamos cansados de gestores seguros demais”, observa.
Segundo ele, a futura prefeita é uma pessoa humilde e de olhar diferenciado. Segundo Berlis, o povo de origem alemã é duro e conservador, muitas vezes, mas é hospitaleiro. “Teremos o governo de uma mulher competente, que alia seriedade e trabalho”, destaca Berlis.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Dois Irmãos e Morro Reuter, Pedro Joãozinho Becker, diz que a entidade sempre defendeu uma maior participação da mulher na administração pública. “Demorou mais de cinco décadas para chegarmos a esse momento de uma mulher no comando da cidade. Estamos torcendo para a gestão dela ser um sucesso”, confidencia.

Passeando na Praça do Imigrante, o aposentado Irineu Eich acredita que Tânia Terezinha terá uma atenção especial e mais humana “com pretos, brancos, pobres e ricos”.

Nos dias de folga, a prefeita eleita gosta de se encontrar com amigos para a tradicional roda de chimarrão e um bate-papo. Igualmente não despreza uma boa música. É fã de Gilberto Gil, Alcione, Maria Bethânia e Gal Costa.

‘Respeita e sabe ouvir’
Na Praça do Imigrante, em Dois Irmãos, um aposentado com um forte sotaque alemão observava com atenção os cumprimentos dos eleitores à futura prefeita e fez o seguinte comentário: “O povo alemão é duro, exigente, mas sabe reconhecer uma Schwarze Frau (mulher negra) que respeita as pessoas e sabe ouvir, o que é o caso da prefeita Tânia Terezinha”.



Fonte: Cláudio Isaías / Correio do Povo

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

863 índios se suicidaram desde 1986… e quase ninguém viu ou soube

Nas últimas semanas, além do futebol de sempre, dois assuntos ocuparam as manchetes: o julgamento do chamado "mensalão" e, na campanha eleitoral em São Paulo, o programa de combate à homofobia, grotescamente apelidado de "Kit Gay". Quase nenhuma importância se deu a uma espécie de testamento de uma tribo indígena.

A reportagem é de Bob Fernandes e publicado pelo Terra Magazine, 23-10-2012.

A Justiça Federal decretou a expulsão de 170 índios da terra em que vivem. Isso no município de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, à margem do Rio Hovy. Isso diante de silêncio quase absoluto da chamada grande mídia. (Eliane Brum trata longamente do assunto no site da revista Época nesta segunda-feira, 22). Há duas semanas, numa dramática carta-testamento, os Kaiowá-Guarani informaram:

- Não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui, na margem do rio, quanto longe daqui. Concluímos que vamos morrer todos. Estamos sem assistência, isolados, cercados de pistoleiros, e resistimos até hoje (…) Comemos uma vez por dia.

Em sua carta-testamento os Kaiowá-Guarani rogam:

- Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais.

Diante dessa história dantesca, a vice-procuradora Geral da República, Déborah Duprat, disse: "A reserva de Dourados é (hoje) talvez a maior tragédia conhecida da questão indígena em todo o mundo".

Em setembro de 1999, estive por uma semana na reserva Kaiowá-Guarani, em Dourados. Estive porque ali já se desenrolava a tragédia. Tragédia diante de um silêncio quase absoluto. Tragédia que se ampliou, assim como o silêncio. Entre 1986 e setembro de 1999, 308 índios haviam se suicidado. Em sua maioria, índios com idade variando dos 12 aos 24 anos.

Suicídios quase sempre por enforcamento, ou por ingestão de veneno. Suicídios por viverem confinados, abrutalhados em reservas cada vez menores, cercados por pistoleiros ou fazendeiros que agiam, e agem, como se pistoleiros fossem. Suicídios porque viver como mendigo ou prostituta é quase o caminho único para quem é expelido pela vida miserável nas reservas.

Italianos e um brasileiro fizeram um filme-denúncia sobre a tragédia. No Brasil, silêncio quase absoluto; porque Dourados, Mato Grosso, índios… isso está muito longe. Isso não dá ibope, não dá manchete. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, o índice de assassinatos na Reserva de Dourados é de 145 habitantes para cada 100 mil. No Iraque, esse índice é de 93 pessoas para cada 100 mil.

Desde fins de 1999, quando, pela revista Carta Capital, estive em Dourados com o fotógrafo Luciano Andrade, outros 555 jovens Kaiowá-Guarani se suicidaram no Mato Grosso do Sul, descreve Eliane Brum. Sob aterrador e quase absoluto silêncio. Silêncio dos governos e da chamada mídia. Um silêncio cúmplice dessa tragédia.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/514858-863-indios-se-suicidaram-desde-86-e-quase-ninguem-viu-ou-soube

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Decisão judicial ameaça vida de comunidade indígena 
 
População Guarani-Kaiowá que vive no Mato Grosso do Sul pode cometer suicídio coletivo após Justiça determinar desocupação de área. Ato público em Brasília chamou atenção para o fato 


O pedido de socorro da comunidade Gurani-Kaiowá agora é para a sociedade e para o Congresso Nacional, já que a população indígena não acredita mais na justiça (foto: Rafael Werkema)

Uma decisão judicial pode extinguir toda uma comunidade indígena. É o que está prestes a acontecer com a população da etnia Guarani-Kaiowá que vive em Porto Cambira (MS). Uma determinação do Tribunal Regional Federal da 3ª Região está obrigando as famílias a se retirarem da área, ocupada pela comunidade desde 2002, para o capital agrícola tomar conta. Agora, homens, mulheres e crianças Guarani-Kaiowá ameaçam cometer suicídio coletivo, caso a decisão da justiça não seja revertida.

Um desfecho trágico para uma história marcada pelas constantes violações de direitos humanos dos povos que, de acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), viveram na região até a década de 1920, quando foram expulsos por fazendeiros. As famílias retornaram em 2000, em caravanas, e um acordo mediado pelo Ministério Público Federal (MPF) em 2002, em Dourados, destinou 40 hectares da fazenda para essa população indígena. Desse período para cá, a comunidade vem sofrendo ameaças e agressões dos fazendeiros e pistoleiros da região.

“Nossas lideranças estão sendo assassinadas”, denunciou o índio Elizeu Lopes, da etnia Guarani-Kaiowá, que participou na última sexta (19/10) de um ato público na Esplanada dos Ministérios, em Brasília (DF), com o objetivo de chamar a atenção da sociedade para a questão. “Solidarizamo-nos em defesa dos povos indígenas que, ao longo da história, repetidas vezes, têm sido vítimas de violência, maus tratos, ausência de políticas públicas e descaso”, afirmou Humberto Verona, presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP), entidade que organizou a mobilização juntamente com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

O ato reuniu dezenas de participantes que, usando roupas pretas em sinal de protesto, levantaram faixas de apoio ao povo Guarani-Kaiwoá, em meio a milhares de cruzes fincadas no gramado da Esplanada, em frente ao Congresso Nacional. “Se vão nos tirar nossa terra, que antes enterrem nossas vidas lá, pois pertencemos àquele lugar”, bradou Elizeu.


Camisas pretas, cruzes e faixas para protestar contra o descaso das autoridades e da justiça sobre o fato (foto: Rafael Werkema)

Para a conselheira do CFESS Ramona Carlos, que participou da mobilização, o genocídio que vem ocorrendo em Mato Grosso do Sul é reflexo de mais de cinco séculos de violência contra os povos indígenas e da opção do poder público em priorizar o capital do agronegócio, desconsiderando a vida e a cultura das comunidades indígenas. “A condição que assegura a constituição desses povos como indígenas é o pertencimento ao seu território, entendido como espaço sagrado, gerador da vida. Por isso o problema não se resolve com a oferta de outras terras para realocar aquela comunidade Guarani-Kaiowá. A lógica do capital coloca o lucro sobreposto aos direitos humanos, desconsiderando os fatores etnoculturais e os valores históricos, cuja relação com a terra pressupõe a sua preservação. É preciso respeitar a cultura e a territorialidade desses povos”, criticou. 

A assistente social Elenir Coroaia, da etnia Kaingang, a 3ª maior do país, foi incisiva ao falar da decisão da Justiça Federal de reintegração de posse das terras no Mato Grosso do Sul. “Para um Judiciário como o da região do Mato Grosso do Sul, que é ocupado por parentes de fazendeiros, e um governo que menos demarcou terras nos últimos 20 anos, os fatos que vêm ocorrendo, não só com os Guarani-Kaiowá, mas com todos os povos indígenas, demonstram que a Constituição Brasileira vem sendo atacada e os direitos indígenas alijados”. Coroaia chamou a atenção também ao fato de que a comunidade já havia se constituído na área, com escola, agricultura de subsistência, moradia e outros aspectos culturais que foram desconsiderados pela justiça.

O CFP enviou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) um pedido de análise e manifestação sobre a Medida Cautelar nº5/2012, ajuizada pela Justiça Global, que relata os casos de violência sofridos pelos povos indígenas, no sentido de buscar intervenção internacional sobre o caso.

Leia a carta da comunidade Guarani-Kaiowá que ameaça cometer suicídio coletivo

E a situação de demarcações de terras indígenas no Brasil pode ainda piorar. Tramitam no Congresso Nacional propostas de emenda à Constituição (PECs) que transferem a responsabilidade da demarcação de terras indígenas do Executivo para o Congresso Nacional. Isso inviabilizaria qualquer nova demarcação de terra para os povos indígenas, dada a forte presença de ruralistas no legislativo brasileiro.


A conselheira do CFESS Ramona Carlos (à esquerda) e a assistente social da etnia Kaingang Elenir Coroaia (ao centro) afirmam que este debate precisa ser mais aprofundado pelo serviço social (foto: Rafael Werkema)

Serviço Social e a Questão Indígena
Em abril de 2012, o CFESS lançou pela primeira vez um manifesto da entidade sobre a questão indígena, demonstrando a necessidade de aprofundar o debate sobre tema. No Seminário de Serviço Social e Direitos Humanos, realizando em setembro na cidade de Palmas (TO), o movimento indígena, representando pelo Cacique Babau, foi um dos atores centrais das discussões que permearam o evento.
Agora a questão ganha novamente destaque na agenda da categoria com os acontecimentos relacionados à comunidade Guarani-Kaiowá. Entretanto, é preciso que assistentes sociais se apropriem mais desse debate.

É o que aponta a assistente social Elenir Coroaia, que trabalha com a questão da saúde indígena. Para ela, o campo profissional vem se ampliando e ultrapassa as fronteiras urbanas, tendo em vista que a questão social tem seus rebatimentos na área rural, inclusive com os povos indígenas. “As políticas sociais são para toda a população brasileira, inclusive para essas comunidades. Por exemplo: crianças e mulheres indígenas também sofrem violência, a população também precisa ser orientada em relação aos seus direitos, que vão além da questão da terra”, destacou.

Ela ressaltou o trabalho de assistentes sociais dentro das equipes interdisciplinares de saúde, nos Centros de Referências de Assistência Sociais (Cras) e em outros espaços de atenção a essas comunidades. Como desafio, Coroaia apontou a intervenção profissional, balizada no Código de Ética profissional e em leis e estatutos, com povos que possuem suas próprias tradições, cultura e constituição de sociedade. “Não dá para o poder público continuar com a ideia de colonizador e colonizado; essa concepção deve mudar”, alertou.

Para a conselheira do CFESS, Ramona Carlos, o trabalho de assistentes sociais junto às populações indígenas exige “compreender que cada etnia constitui-se como um povo, com uma cultura própria, estrutura e organização, dadas as particularidades e especificidades, cujas visões de mundo impõem desafios de pensar políticas públicas capazes de assegurar o acesso, respeitando a cultura e os valores dessas comunidades”.

Leia o CFESS Manifesta sobre a Luta Indígena


Fonte: http://www.cfess.org.br/noticias_res.php?id=865

quinta-feira, 18 de outubro de 2012




 Era 1960 e a África do Sul vivia um dos momentos mais intensos do Apartheid, o regime de segregação racial comandado pelo governo, quando um adolescente foi expulso da escola Lovedale, em King William’s Town, por “comportamento subversivo”. Este jovem foi transferido para outra instituição na região litorânea de Natal, terminou o ensino médio e ingressou na Escola de Medicina da Universidade de Natal, onde daria início a uma vida de luta em nome da liberdade de seu povo. Seu nome era Stephen Bantu Biko, conhecido como Steve Biko. Reconhecido contestador do Regime do Apartheid, Biko que até então era membro da  União Nacional dos Estudantes Sul-africanos, decidiu fundar, em 1968, a Organização dos Estudantes Sul-africanos (South African Students’ Organisation), que além de representar os direitos dos estudantes, providenciava auxílio médico e legal a comunidades negras desfavorecidas e ajudava no desenvolvimento de trabalho em sistema doméstico (o empregador dá ferramentas e matéria-prima, e a produção pode ser feita em casa).
Em 1972 Biko tornou-se co-fundador da Black People’s Convention (BPC – “Convenção dos Negros”, em tradução livre), entidade que trabalhava em projetos de desenvolvimento social nos arredores de Durban e reuniu 70 diferentes grupos de consciência negra. Ao ser eleito o primeiro presidente da organização, foi expulso da universidade e passou a dedicar em tempo integral à sua luta.
Banido – Em março de 1973, no ápice do regime de segregação racial, Steve foi “banido”, o que o que na prática significava que Biko não poderia sair de sua cidade natal, estava proibido de comunicar-se com mais de uma pessoa por vez e, portanto, de realizar discursos. Também foi proibida a citação a qualquer de suas declarações anteriores, tivessem sido feitas em discursos ou mesmo em simples conversas pessoais.
Apesar de não mais poder se dedicar a algumas atividades em Durban, Biko continuou a trabalhar na BPC estimulando a população negra a lutar por seus direitos, cada vez menos respeitados pelas autoridades segregacionistas. O governo reagiu e chegou a prender Biko por quatro vezes entre 1975 e 1977.
Em 6 de setembro de 1977, Steve foi preso em um bloqueio rodoviário organizado pela polícia sul-africana. Levado sob custódia, foi acorrentado às grades de uma janela da penitenciária durante um dia inteiro e sofreu grave traumatismo craniano. Em 11 de setembro, o rapaz já estava em um estado contínuo de semi-consciência quando o médico da prisão aconselhou que Biko fosse levado a um hospital.
Jogado sem qualquer proteção em um Land Rover, Biko foi levado numa viagem de 1,2 mil quilômetros rumo à cidade de Pretória. No dia seguinte (12 de setembro), Steve chegou ao Presídio Central da cidade, jogado no chão de uma cela fria, despido e quase inconsciente.
Morte – Ao notar que o prisioneiro não se mexia, os carcereiros chamaram um médico, não prestando qualquer socorro a ele até que o profissional chegasse. O médico, ao examinar Biko, só pôde levantar os olhos para os guardas e dizer: “O homem está morto.” Causa da morte: danos cerebrais.
A comunidade negra sul-africana entrou em polvorosa. A versão oficial da morte de Biko, proferida pelo então ministro da Justiça, James Kruger, sugeria que o prisioneiro havia morrido após longa greve de fome. Mas a grande pressão da imprensa internacional fez cair por terra a alegação de suicídio. Foi reconhecido pelo governo, publicamente, que Steve morreu de danos cerebrais sofridos durante uma briga na prisão, mas ninguém foi responsabilizado. O funeral do ativista atraiu às ruas centenas de milhares de sul-africanos, num protesto que entrou para a história mundial.
A morte de Biko provocou manifestações em várias localidades pelo mundo e ele logo foi alçado à mártir, inspirando outros a lutar pela igualdade dos direitos entre negros e brancos. Como retaliação, o governo da África do Sul baniu organizações (principalmente as em que Biko trabalhou) e pessoas que se manifestaram contra o Apartheid.
Em 7 de outubro de 2003, autoridades do Ministério Público Sul-africano anunciaram que os cinco policiais envolvidos no assassinato de Biko não seriam processados, devido a falta de provas. Alegaram também que a acusação de assassinato não se sustentaria por não haver testemunhas dos atos supostamente cometidos contra Biko. Levou-se em consideração a possibilidade de acusar os envolvidos por Lesão Corporal seguida de morte, mas como os fatos ocorreram em 1977, tal crime teria prescrito (não seria mais passível de processo criminal) segundo as leis do país.
Referências nas artes – Após sua morte, Steve Biko foi homenageado por diversas vertentes artísticas, como nas canções “Biko’s kindred lament” (1979) do Steel Pulse e “Biko” (1980), de Peter Gabriel. Em 1987 Richard Attenborough dirigiu o filme Cry Freedom (Um grito de liberdade), um drama biográfico sobre Biko. A música de Peter Gabriel foi incluída na trilha sonora. Na série de ficção científica da televisão americana Star Trek: The Next Generation há uma espaçonave chamada USS Biko.


Fonte: Arca Universal
Disponível em: Fundação Cultural Palmares
Fonte: http://www.abpn.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2280&Itemid=24
 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Apelido, marca e identifica

Os apelidos como “nego gonça”, “negrinho”, “negão”, no Brasil devem ser utilizados com cuidado. Melhor ser utilizado em casa, realmente entre amigos.
Se sair na rua sendo chamado pelo apelido, isto pode virar arma na mão de um estranho, pode ser usado para discriminar o sujeito que leva o codinome. Ideal é ser “politicamente correto”, chamar o outro pelo nome, ainda mais porque os africanos ou negros, no Brasil, também receberam nomes e até mesmo sobrenome de seus donos.
O “politicamente incorreto”, é usar apelidos para discriminar, também entre conhecidos em local estranho, não ser tratado pelo nome.
Realizar o discernimento de tratamento, seria um chamado, uma convocação, para gerar respeito no tratamento com alguém que não se conhece.
O Brasil está mal acostumado com marcas, rótulos, tanto para o bem quanto para o mal. Pode soar estranho ser chamado pelo nome, por senhor, senhora, moço, moça, porém em um país onde a educação e gentileza, estão esquecidos, seria como reaprender a ser gente com educação.


Por Isis Alves

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Com a palavra, Alpha Condé
A história do presidente Alpha Condé e da República da Guiné confundem-se com a luta por democracia que se reflete em toda a África.

Por: Maurício Pestana



Condé é um dos mais respeitado intelectuais do continente africano. Professor de Ciência Política na Universidade de Sorbonne, em Paris, por 10 anos, passou décadas em oposição a vários regimes ditatoriais de seu país, concorrendo à presidência da República nas eleições de 1993 e 1998, ano em que foi preso por ordem de seu opositor, Lansana Conté, que o acusou de "atentado à autoridade do Estado e à integridade do território nacional". Condé foi liberado em 2001. Em 2010, disputou novamente as eleições - as primeiras realmente democráticas na história da Guiné, após 52 anos de ditaduras. Condé saiu vencedor no segundo turno com 52,5% dos votos. As comemorações pela sua vitória foram marcadas por confrontos violentos entre os partidários do candidato derrotado, Cellou Dalein Diallo, e a polícia. Em 19 de julho de 2011, a casa de Alpha Condé foi invadida por um grupo armado, que explodiu o portão com um lança-foguetes e danificou e destruiu partes da residência a tiros. O presidente saiu ileso, graças à intervenção de sua guarda pessoal. Nesta entrevista exclusiva, o presidente da Guiné - país que detém 2/3 de toda a bauxita produzida no planeta - fala dos sonhos de uma África livre, do Brasil (país que visitou recentemente) e do papel dos negros no mundo na atualidade.


Quais foram suas impressões sobre o Brasil e os afro-descendentes do nosso país?

Já tinha tido a oportunidade de visitar o Brasil e achei um pouco estranho ver que o país, onde 52% da população é negra, ter uma representatividade no governo e em algumas outras posições no poder, que não refletem essa presença. Engraçado que me faz lembrar quando visitei outro país: Cuba. Acho que temos um problema da representatividade dos negros na política e na economia. Por que isso? Com uma grande população negra, por que uma representatividade tão baixa?
Realmente! E uma representatividade baixa devido a vários fatores.
Acredito que sim, mas acho que tudo deve ter a ver com a educação e a sabedoria. Também precisamos de uma liberação cultural! E, na verdade, a África tem uma responsabilidade grande nesse problema, porque, antes da primeira guerra mundial, na Europa, falava-se muito do perigo amarelo e, na realidade, era preconceito contra os orientais. Quando o Japão ganhou a guerra contra a Rússia e, depois, quando a China começou a crescer economicamente, mudou a percepção mundial sobre a raça asiática. Em paralelo, para que o negro se sinta bem em todas as partes do mundo - no Brasil, na América Latina e nos Estados Unidos - é importante que a África mude a sua imagem no mundo. Essa posição do negro no Brasil e onde tem a diáspora é muito ligada à situação da África no mundo. A África também tem que ter outra posição para sentir-se bem. O respeito do negro no mercado é relacionado à posição da África e ao respeito que ela tem no mundo.
De que forma o Brasil, com uma população afro-descendente tão grande, pode estabelecer uma relação mais próxima com o continente africano e a Guiné?
Acho que no Brasil houve uma grande evolução com a liderança do presidente Lula. Na verdade, antes dele, havia aqui uma hegemonia cultural da população de origem europeia, e essa desigualdade da população negra em comparação com a europeia está diretamente ligada à falta de liderança na África, porque os líderes africanos estavam mais interessados em ganhar dinheiro para o seu próprio interesse, depositando o dinheiro em bancos na Europa.
Como assim?
Por exemplo: a Guiné assinou com o Brasil um acordo entre a cidade de Salvador e a minha cidade natal na Guiné, Boké. A partir de agora, essas duas cidades são "cidades irmãs." Hoje temos na Guiné um governo com a missão de desenvolver a situação econômica do país e dar dignidade ao homem africano. Com esses esforços que iniciamos na Guiné, é maravilhoso ver que, aqui no Brasil e na América Latina, os líderes estão enfrentando a responsabilidade que têm sobre a condição do negro. É lá que eu vejo como a Guiné pode contribuir com os países como o Brasil. Fazendo a nossa parte para melhorar a condição econômica, cultural e hereditária, vamos ter uma influência sobre a posição do negro aqui no Brasil. No encontro com a presidente Dilma, falei que o respeito do negro no mundo inteiro, depende da posição que a África vai ter no mundo. Temos uma relação dialética entre a posição do negro no mundo e a posição econômica da África.
Nesse primeiro ano de mandato como presidente, o que o senhor aponta como o principal desafio da Guiné?
O maior desafio do país é lutar contra a corrupção. O potencial da Guiné é muito grande. A Guiné tem potencial para ser o país mais rico da África. Nós chamamos de escândalo geológico. Temos 2/3 da reserva de bauxita do mundo. O ferro é comparável a Carajás, muito puro, 70%. Temos ouro e diamante. Além de ser um escândalo geológico, também somos um escândalo agrícola, temos condições excepcionais de água, todos os rios da África têm nascente na Guiné. Mas somos o último país da região em termos de desenvolvimento econômico, e a razão são a corrupção e a má governança.
E como o senhor pretende mudar isso?
Meu objetivo é materializar o destino que a providência deu à África com essa riqueza natural. Por isso, a cooperação bilateral entre África e Brasil é muito importante. A Guiné vai realizar o seu potencial e vai ter um impacto aqui. Hoje, respeito muito a coragem dos países latino-americanos que reconhecem a desigualdade racial e o preconceito. Os latino-americanos podem realizar muitos esforços, mas, sem a África, não vão poder resolver o problema. A África é parte da solução! É a mãe e, aqui, temos os filhos. Uma mãe respeitada tem criança respeitada. A África tem uma responsabilidade na marginalização dos seus filhos. Um dos maiores desafios é enfrentar essa responsabilidade que temos no destino dos filhos da África. Meu primeiro objetivo é atualizar o intercâmbio na África e que ele tenha repercussões no resto do mundo.


Como ex-professor de Ciências Políticas na Sorbonne, quais perspectivas o senhor vê para a crise econômica na Europa e nos Estados Unidos, e como o continente africano está nesse contexto?
Não faz muito tempo que temos independência na África. Na Europa, a Alemanha e a França querem que a África - que é comparável a uma criança de dois anos - ande como um garoto de 20 anos. Não se perguntam como eles andavam quando tinham dois anos. Na verdade, a África tem uma economia pré-industrial. A Europa tem uma economia pós-industrial. Agora, podemos falar de economias financeiras. Esse tipo de economia não é mais a indústria que traz o valor, agora é o jogo do capital. E como a África tem uma economia pré-industrial, como poderia se comportar como economia pós-industrial financeira? Por exemplo, a Europa não quer que a gente insista em subsídios, fala que temos que baixar o número de funcionários, pois temos demais, mas ela nunca baixa. Fala para reduzir o déficit público, mas, na verdade, desde a crise de 1929, usa o Estado para resolver os problemas. A Europa diz para a África que o Estado não tem que ter esse papel. Na verdade temos uma justiça divina agora. A Europa tem uma crise que é ligada à especulação bancária.

"NO BRASIL HOUVE UMA GRANDE EVOLUÇÃO COM A LIDERANÇA DO PRESIDENTE LULA. NA VERDADE, ANTES DELE, HAVIA AQUI UMA HEGEMONIA CULTURAL DA POPULAÇÃO DE ORIGEM EUROPÉIA, E ESSA DESIGUALDADE DA POPULAÇÃO NEGRA EM COMPARAÇÃO COM A EUROPEIA ESTÁ DIRETAMENTE LIGADA À FALTA DE LIDERANÇA NA ÁFRICA, PORQUE OS LÍDERES AFRICANOS ESTAVAM MAIS INTERESSADOS EM GANHAR DINHEIRO PARA O SEU PRÓPRIO INTERESSE."

Como diz uma frase muito popular aqui no Brasil: "Faça o que eu mando, mas não faça o que faço".
Exatamente! Sabe como eles estão resolvendo o problema? Com uma intervenção do Estado no sistema financeiro, porque utilizaram o dinheiro do povo para resolver os problemas financeiros. Por isso gostei muito de uma declaração do ex-presidente Lula. "Eles fizeram o que não deixaram a África fazer". O ministro da economia americana falou: "Em princípio, sou contra a intervenção do Estado, mas, agora, tenho que usar o Estado para resolver o problema." Os Estados Unidos nacionalizaram a LG e a GM, e isso é contrário à política que eles promovem. A crise de 2008 mostrou o fracasso do sistema, que é ultraliberal, e o papel importante que o Estado tem que jogar na economia.
A China tem se tornado parceira em vários países africanos, fala-se, inclusive, em uma nova forma de colonialismo. Como o senhor analisa isso e qual é a relação da Guiné com o governo chinês?
A Guiné não tem medo da China! A Europa acusa a China de fazer o que a Europa já fez na África. Na verdade, somos conscientes da realidade com a China. A economia chinesa é baseada na exportação, e a China compra bônus americanos. Então, uma crise na Europa ou na América pode ter consequências muito grandes na economia chinesa. Se o mercado chinês diminuir com a crise europeia, ele pode ter uma bolha. O Brasil tem uma situação muito diferente, mais equilibrada. Não é tão dependente do comércio exterior, é mais baseado num desenvolvimento interno. Praticamente, podemos dizer que a economia brasileira arrisca menos que a economia chinesa, e é mais sólida que a economia chinesa. É importante para a Guiné encontrar o equilíbrio e ter parcerias com a Europa, a China e também com o Brasil.

"ALÉM DE SER UM ESCÂNDALO GEOLÓGICO, TAMBÉM SOMOS UM ESCÂNDALO AGRÍCOLA, TEMOS CONDIÇÕES EXCEPCIONAIS DE ÁGUA, TODOS OS RIOS DA ÁFRICA TÊM NASCENTE NA GUINÉ. MAS SOMOS O ÚLTIMO PAÍS DA REGIÃO EM TERMOS DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, E A RAZÃO SÃO A CORRUPÇÃO E A MÁ GOVERNANÇA."

Com essa visão bastante otimista da economia brasileira, o que o senhor espera da relação comercial entre Brasil e Guiné?
Minha visita ao Brasil é também para estabelecer uma colaboração mais estratégica de longo prazo com o país. E temos chance! Temos sorte no desenvolvimento desta relação, porque eu e a presidente Dilma temos muito em comum. Fomos da oposição por muito tempo e temos experiência como presos políticos e suas consequências. Mas, graças a Deus, nós dois conseguimos agora a presidência e sem renunciar aos objetivos e princípios que tínhamos durante todos os anos que fomos da oposição. Essa proximidade pode ter consequências importantes nas relações entre Guiné, Brasil e África. Assinamos o protocolo que tornou a minha cidade natal e Salvador, cidades- irmãs, e isso é uma etapa importante, porque, além de construir uma relação bilateral forte entre o Estado da Guiné e o Estado do Brasil, temos vontade de construir uma relação forte em âmbito estadual entre as cidades do Brasil e regiões da Guiné. É importante construir isso, porque estão relacionados ao status dos negros daqui e a posição econômica na África.
Num cenário próximo, como o senhor vê o futuro do Brasil e da África?
Temos que fortalecer todos os laços e ajudar atingir os dois objetivos. Quando você tem uma criança, a esperança é que o filho seja melhor que a mãe. E a África é uma mãe que quer que os filhos sejam melhores que ela. A mãe África vai fazer de tudo para fortalecer e se emancipar, para ver todos os seus filhos no Brasil, em Cuba e em todas as partes do mundo, seguirem em frente. Essa luta do negro no mundo é a luta da África, é a luta da emergência econômica da África, temos uma batalha dura! Os filhos têm que lutar aqui pelos seus direitos, e na África temos que lutar para dar dignidade ao negro, através de um desenvolvimento econômico, só assim a mãe África e os seus filhos serão mais respeitados em todos os países. Essa é a minha luta!

Fonte: http://racabrasil.uol.com.br/cultura-gente/163/artigo246226-1.asp

Devido à Lei 10.639, o mercado de livros voltados às crianças negras não para de crescer

Texto e fotos: Etiene Martins


 
 
 Maria Mazzarello Rodrigues, conhecida como Mazza, trabalha inserindo a parcela negra da sociedade como protagonista na literatura brasileira

O mercado de livro voltado às crianças negras está em franca expansão! Em Belo Horizonte, por exemplo, as editoras já perceberam a demanda pela Lei 10.639 (que determina a obrigatoriedade do ensino da História da África e das populações negras do Brasil nas escolas), e que pais e educadores estão cada vez mais interessados em trabalhar a autoestima das crianças. Mas não é apenas isso! Atualmente, o estímulo à leitura tem levado nossas crianças a escolherem o que de fato querem ler. Essa escolha, para elas, tem que refletir a própria origem e a identidade, por meio de protagonistas bonitos, antenados e, claro, negros. E a diversidade de obras que retratam a cultura negra é enorme. Os personagens, então! São príncipes, princesas, aventureiros e super-heróis que mexem com a imaginação dos pequenos sem, no entanto, apresentar os já conhecidos estereótipos que denigrem a imagem (e a realidade) da população negra brasileira. Até pouco tempo, era praticamente impossível encontrar nos livros um personagem negro que não tivesse características pejorativas, fato que comprometia a construção da identidade e do orgulho negro, formados ainda na infância no campo das semelhanças e diferenças e, principalmente, pelas diversas maneiras que o assunto é tratado pela sociedade.
Há 30 anos, Maria Mazzarello Rodrigues, conhecida como Mazza, trabalha inserindo a parcela negra da sociedade como protagonista na literatura brasileira. Fundadora de uma editora que leva seu apelido, localizada em um bairro da região leste de Belo Horizonte, Mazza se encantou com a diversidade de publicações votada para a etnia negra existente na Europa durante o período que fazia mestrado em editoração na Universidade de Paris. Quando voltou ao Brasil, em 1981, lançou a editora. “Foram 24 anos de muito sufoco, apenas em 2003, que a literatura passou ser obrigatória, é que a situação começou a melhorar. Somente depois da lei, as grandes editoras lançaram um selo negro”, diz Mazza que, como toda negra, sentiu na pele o que é ser uma criança e não se identificar com nenhum personagem. A falta de referência foi o que a impulsionou a entrar no mercado. “Nós entramos pelas portas do fundo, mas há ainda muito que se fazer, pois apenas dez estados brasileiros cumprem a Lei 10.639”, afirma. A obrigatoriedade da lei, no entanto, é vista também como uma grande oportunidade. “Todo aparato que até pouco tempo tínhamos vinha com a predominância branca e com traços europeus, não vejo a Lei 10.639 como obrigatoriedade, mas como uma oportunidade para as crianças negras que hoje podem interagir muito mais. Paralela à obrigatoriedade, está a oportunidade de quebrar esse preconceito”, declara a educadora Iris Amâncio.-

 
O casal Andréia Aparecida e Celso Augusto, com os filhos Vitória, Guilherme e João


EDUCAR COM BONS LIVROS
Chico Juba é um menino corajoso feito um leão. Ele é um grande inventor de xampus que pretende solucionar as incríveis reviravoltas de suas mechas. Seus esforços mostram para as crianças a incrível descoberta que podemos ter, sendo quem somos. A obra é de Gustavo Gaivota, que conseguiu transformar experiências negativas, vividas por crianças de cabelos crespos em uma grande aventura. “Todas minhas obras abordam as questões das diferenças, é o que me move”, diz o escritor. Os livros são absorvidos por pessoas como o professor Leandro Duarte, de 28 anos, que adora comprar publicações que apresentam a questão racial. Para ele, trabalhar com a diversidade é essencial em sua profissão. “O professor tem que fortalecer essas informações junto aos alunos. Na infância, o olhar lançado sobre o negro e sua cultura, tanto pode valorizar identidades e diferenças quanto estigmatizá-las, discriminá-las, segregá-las e, até mesmo, negá-las”, explica. Anderson Feliciano, autor de A verdadeira estória do Saci, acrescenta que é fundamental repassar para as crianças que elas podem, sim, contar sua própria história. “Eu quero que elas se identifiquem com os personagens e não se sintam excluídos como me senti na infância.” Para o ilustrador e escritor de livros infantis étnico-raciais, Rubem Filho, é necessário extinguir da literatura infantil o complexo de senhor e escravo. Ele parte do princípio da igualdade e quer mostrar para as crianças que elas têm todos os motivos para se orgulhar de serem negras.




"TODO APARATO QUE ATÉ POUCO TEMPO TÍNHAMOS VINHA COM A PREDOMINÂNCIA BRANCA E COM TRAÇOS EUROPEUS, NÃO VEJO A LEI 10.639 COMO OBRIGATORIEDADE, MAS COMO UMA OPORTUNIDADE PARA AS CRIANÇAS NEGRAS QUE HOJE PODEM INTERAGIR MUITO MAIS. PARALELA À OBRIGATORIEDADE, ESTÁ A OPORTUNIDADE DE QUEBRAR ESSE PRECONCEITO."
IRIS AMÂNCIO, EDUCADORA


Anderson Feliciano, autor de A verdadeira estória do Saci





"ESSAS PUBLICAÇÕES MOSTRAM UM AVANÇO, UMA ABERTURA NO CENÁRIO MINEIRO QUE DURANTE TODA MINHA INFÂNCIA AINDA TINHA A PORTA FECHADA PARA OS AFRO DESCENDENTES. EU PROCURO INSERIR MEUS FILHOS NO MUNDO LITERÁRIO E AGORA ACREDITO QUE DE UMA FORMA MAIS IGUALITÁRIA JÁ QUE PODEMOS VER O NEGRO REPRESENTADO NAS ESTÓRIAS INFANTIS."
ELISANGELA, AUXILIAR ADMINISTRATIVA


André Luís e o filho Fernando

E, se o mercado está aquecido e os autores produzindo em ritmo e criatividade acelerados, o consumidor não fica atrás em relação ao consumo de livros sobre a cultura negra ou que tragam personagens que servem como espelhos positivos para crianças e jovens. O médico André Luis, de 52 anos, busca compartilhar com o filho adotivo Fernando, de seis anos, a literatura e a cultura afro. “É importantíssima a valorização, não quero que meu filho se veja de forma massacrada, mas sim valorizada, faço questão de inserir em sua cultura publicações que o valorizam.” Andréia Aparecida, de 37 anos, e Celso Augusto, de 32 – ambos técnicos em enfermagem e pais de Vitória, de 8 anos, Guilherme, de 5, e o recém-nascido João –, seguem a mesma receita e procuram inserir a literatura na vida dos filhos desde muito cedo. “É bom que eles criem gosto pela leitura de bons livros”, declara Andréia.




"É IMPORTANTÍSSIMA A VALORIZAÇÃO, NÃO QUERO QUE MEU FILHO SE VEJA DE FORMA MASSACRADA, MAS SIM VALORIZADA, FAÇO QUESTÃO DE INSERIR EM SUA CULTURA PUBLICAÇÕES QUE O VALORIZA."
ANDRÉ LUIS, MÉDICO


Rubem Filho e Gustavo Gaivota












quinta-feira, 13 de setembro de 2012


"Talvez duas crianças tenham morrido para você ter o seu celular"

Consumidores de telefones celulares são chamados a refletir sobre a exploração sangrenta na República Democrática do Congo de uma matéria-prima para esses aparelhos, o tântalo.

A reportagem é de Inés Benítez da Agência de Notícias IPS e reproduzida pelo Brasil de Fato, 12-09-2012.

Os consumidores de telefones celulares são chamados a refletir sobre a exploração sangrenta na República Democrática do Congo de uma matéria-prima para esses aparelhos, o tântalo.
"Pode ser que duas crianças tenham morrido para você ter esse telefone celular", disse Jean- Bertin, um congolense de 34 anos que denuncia o "silêncio absoluto" sobre os crimes cometidos em seu país pela exploração de matérias-primas estratégicas como o coltan (columbita-tantalita). A República Democrática do Congo (RDC) possui pelo menos 64% das reservas mundiais de coltan, nome popular na África central para designar as rochas formadas por dois minerais, columbita e tantalita.

Da tantalita se extrai o tântalo, metal duro de transição, de cor azul acinzentado e brilho metálico, resistente à corrosão e que é usado em condensadores para uma enorme variedade de produtos, como telefones celulares, computadores e tablets, bem como em aparelhos para surdez, próteses, implantes e soldas para turbinas, entre muitos outros. "A maldição da RDC é sua riqueza. O Ocidente e todos que fabricam armas metem o nariz ali", lamenta Jean-Bertin, que chegou há oito anos à cidade espanhola de Málaga, procedente de Kinshasa, onde vivem seus pais e dois irmãos.

A extração de coltan contribui para manter um dos maiores conflitos armados da África, que causou mais de cinco milhões de mortos, êxodo em massa e violações de 300 mil mulheres nos últimos 15 anos, segundo organizações de direitos humanos. Isto foi reconhecido em 2001 pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), que confirmou a existência do "vínculo entre a exploração ilegal dos recursos naturais e a continuação do conflito na República Democrática do Congo". Um grupo de especialistas convocado pelo Conselho registrou até 2003 cerca de 157 empresas e indivíduos de todo o mundo vinculados, de um modo ou de outro, à extração ilegal de matérias-primas valiosas na RDC.

A exploração de coltan em dezenas de minas informais, salpicadas na selva oriental da RDC, financia os grupos armados e corrompe militares e funcionários. A extração artesanal, sem nenhum controle de qualidade, comporta um regime trabalhista próximo da escravidão e um grande dano ao meio ambiente e à saúde dos trabalhadores, incluindo crianças, segundo o documentário de 2010 Blood in the Mobile (Sangue no Celular), do diretor dinamarquês Frank Piasecki.

No entanto, fontes da indústria, como o Tantalum- Niobium International Study Center (TIC), alertam que as jazidas de coltan na RDC e de toda a região da África central estão longe de serem a fonte principal de tântalo. A Austrália foi o principal produtor desse mineral durante vários anos e mais recentemente cresceu a produção sul-americana e asiática, além de outras fontes, como a reciclagem. O TIC estima que as maiores reservas conhecidas de tântalo estão no Brasil e na Austrália, e ultimamente há informações sobre sua existência na Venezuela e na Colômbia.

RDC tem outras riquezas naturais igualmente contrabandeadas, como ouro, cassiterita (mineral de estanho), cobalto, cobre, madeiras preciosas e diamantes. Contudo, está em último lugar no Índice de Desenvolvimento Humano 2011. Neste cenário, as denúncias da sociedade civil organizada apelam cada vez mais aos consumidores de produtos que contêm estes materiais. Na Espanha, a Rede de Entidades para a República Democrática do Congo - uma coalizão de organizações não governamentais e centros de pesquisa - lançou em fevereiro a campanha Não com o meu Celular, para exigir dos fabricantes o compromisso de não usarem coltan de origem ilegal.

O surgimento de novas fontes de tântalo e a reciclagem deveriam ajudar a reduzir a pressão da demanda sobre o coltan congolense. A organização Entreculturas e a Cruz Vermelha Espanhola promovem desde 2004 a campanha nacional Doe seu Celular, para incentivar a entrega de aparelhos velhos para serem reutilizados ou para reciclagem de seus componentes. Os fundos obtidos são investidos em projetos de educação, meio ambiente e desenvolvimento para setores pobres da população. Até julho foram coletados 732.025 aparelhos e arrecadados mais de um milhão de euros, contou ao Terramérica a coordenadora da campanha na EntreculturasEster Sanguino.

Entretanto, fundações e empresas dedicadas à reciclagem, ouvidas pelo Terramérica, concordam que seria impossível abastecer com esta fonte uma porção significativa da crescente demanda mundial por tântalo. A pressão do mercado faz com que as pessoas troquem o celular por outro mais moderno de tempos em tempos, por isso a reciclagem, mesmo feita em grande escala, não daria conta, disse ao Terramérica uma fonte da BCD Electro, empresa de reutilização e reciclagem informática e eletrônica. E a telefonia móvel é apenas um segmento das aplicações atuais do tântalo.

Apple Intel anunciaram, em 2011, que deixariam de comprar tântalo procedente da antiga colônia belga. Nokia eSamsung fizeram declarações similares. A Samsung assegura em sua página corporativa que tomou medidas para garantir que seus terminais "não contenham materiais derivados do coltan congolense extraído ilegalmente". Na verdade, os códigos de conduta empresariais vieram preencher o vazio de normas taxativas.

O esforço maior é o das Diretrizes da OCDE para Empresas Multinacionais, pois compreende todas as nações industrializadas sócias da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Porém, o longo e opaco circuito do coltan congolense torna difícil demonstrar que tais códigos são cumpridos. Os minerais explorados ilegalmente são contrabandeados através de países vizinhos, como Ruanda e Uganda, para Europa, China e outros destinos.

"Os grupos rebeldes proliferam pela riqueza das terras em coltan, diamantes ou ouro", disse ao Terramérica o coordenador da organização humanitária Farmamundi na RDC, Raimundo Rivas. Os governos vizinhos são "cúmplices" e "até o momento tudo é apoiado e encoberto pelas empresas beneficiárias, em seu último destino, dessas riquezas", ressaltou. "Há muitos interesses econômicos em torno do negócio do coltan", alertou Jean-Bertin. Enquanto isso, na RDC "as matanças são reais. O sangue está por toda parte, e, no entanto, é como se o país não existisse".

Por isso gera expectativas a decisão da Comissão de Valores dos Estados Unidos (SEC), que, no dia 22 de agosto, regulamentou um capítulo da Lei de Proteção do Consumidor e Reforma de Wall Street, referente aos "minerais de conflitos". A Lei 1.502 estabelece que todas as empresas nacionais ou internacionais já obrigadas a entregar informação anual à SEC e que manufaturem ou contratem a manufatura de produtos que contenham um dos quatro minerais de conflito (estanho, tântalo, tungstênio, ouro) deverão adotar medidas para determinar sua origem mediante a análise da cadeia de fornecimento.

Contudo, o primeiro informe deverá ser apresentado em 31 de maio de 2014, prazo considerado excessivo por defensores dos direitos humanos, que denunciam os crimes que continuam sendo cometidos na RDC, apesar da presença desde 2010 de uma missão de paz da ONU. Com o olhar dominado pela raiva e sua filha de seis meses nos braços, o congolense Jean- Bertin insiste que os grupos armados "dão armas a muitas crianças e as obrigam a entrar para um ou outro bando". Para Rivas, "a única solução é um governo forte na RDC, que possa responder aos ataques, e um apoio internacional real que penalize aquelas empresas suspeitas de importar minerais de zonas em conflito".